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Sandra Felgueiras: “Nunca fui beneficiada pelo apelido”

10 Março 2011 2.003 visualizações Comentar

 

Por Nuno Cardoso/Foto Gerardo Santos / Global Imagens

A pivô do Hoje, da RTP2, fala da ligação aos pais, da adaptação a Lisboa e da perda de José Alberto Carvalho e Judite Sousa na RTP. Aos 33 anos, aprendeu a apreciar as coisas simples da vida.

Completam-se quatro meses de Hoje. Que balanço faz deste novo projecto?

Hiperpositivo. Foi um desafio que me foi lançado por José Alberto Carvalho e Judite Sousa que oportunamente soube agarrar e me deu bases para ser uma profissional melhor. Sinto-me com alma de repórter, mas é reconfortante progredir numa área que nunca tinha ambicionado.

Recebeu este convite com surpresa?

Sim! Fiquei contente, não estava à espera. Sinto-me honrada por abraçar um desafio de raiz. A ideia de José Alberto foi: “Vamos reconstruir tudo isto.” É gratificante ver o bebé a nascer.

É mais difícil fazer um noticiário em pé?

Não. A lógica é fazer informação de forma mais leve e com um conteúdo mais profundo, sem estar sentado. Chega de Portugal sentado. Chega de fazer informação da mesma maneira.

A Sandra alterna, à semana, o Hoje e as reportagens do Telejornal. Foi uma decisão sua não prescindir das reportagens de rua?

Foi de comum acordo. O José Alberto e a Judite acharam que era uma perda deixar de fazer reportagem e eu concordei. Quando tens um território firme é pouco inteligente prescindires da área de conforto para te lançares num desafio novo.

Como reage ao feedback do público na rua?

Não sou muito abordada. As pessoas não são ostensivas. E quando me abordam é sempre de forma simpática, nunca tive experiências bizarras. E ainda bem, sinto-me bem assim.

Já passou pela Barcelona Television, SIC e Expresso. A RTP é a casa onde se sente mais confortável a nível editorial?

Na RTP sempre tive tudo o que precisei para trabalhar bem. Nunca tive um conflito editorial nem fui condicionada, sempre senti liberdade total. Olhando para o que existe, sinto-me bem aqui. Revejo-me na informação da RTP.

Como é que vê a ida de José Alberto Carvalho e Judite Sousa para a TVI?

Fico muito triste, são duas referências insubstituíveis. E a RTP cometeria um erro se algum dia quisesse encontrar alguém como eles. São únicos e deixam um legado extraordinário. A RTP nunca mais vai ser a mesma. A Judite era a alma da RTP. Isto é um rombo para o canal. Não quer dizer que não existam profissionais capazes de reabilitar. As tropas até estão mais fortes. Mas é uma grande perda. Aprendi imenso com eles, é impossível cortar o cordão umbilical. Chorei muito no ombro de um e do outro, mas é a vida.

Como é que os descreve?

O José Alberto tem virtudes inigualáveis, um coração gigante, uma lealdade e frontalidade enormes. A Judite ajudou-me sempre, foi quase minha mamã na ausência da minha em Portugal.

Voltemos alguns anos atrás. De onde nasceu a paixão pelo jornalismo?

Desde pequenina. A minha mãe diz que eu olhava para a TV e queria saltar lá para dentro. Foi crescendo em mim, sempre adorei escrever, escrevo em cada pedaço de papel, as pessoas até gozam comigo (risos).

Como foi sair de Felgueiras para Lisboa para fazer a faculdade?

A adaptação foi dolorosíssima. A relação que tive com Lisboa foi do tipo Gata Borralheira com a madrasta. Estava muito bem em casa, com o meu grupo de amigos, a mãezinha, o namorado da terrinha… De repente, cheguei a Lisboa e vi-me no meio de uma cidade imensa que desconhecia. Senti-me isolada. Depois estagiei em Barcelona e quando voltei a Lisboa comecei a ver-me não como Gata Borralheira mas como Cinderela.

Quem é mais crítica com o seu trabalho? A Sandra ou a sua família?

Eu. Sou muito dura comigo e perfeccionista. Não compito com ninguém, compito comigo própria. O meu pai é a pessoa doce que está sempre a dizer-me que estou bem. Ele ainda tentou que não fosse jornalista, queria que algum filho seguisse o seu ramo, advocacia, mas, quando percebeu que era isto que queria, sempre me incentivou.

E a sua mãe, Fátima Felgueiras, vê o Hoje regularmente?

Ela é fã do meu trabalho, está sempre a dizer que sou a maior, é uma mãe galinha. Vê sempre o Hoje. Aquilo pode ter zero de audiência, mas os pais estão a ver, estão sempre lá! (risos)

Começou o doutoramento em Ciência Política, na Católica. O bichinho da política foi herdado da mãe?

Não. Quando fui para o Expresso estava na secção de Política. Comecei a interessar-me pela matéria e achava que o curso não deu bagagem para fazer aquilo bem. Necessitava de algo mais.

O apelido Felgueiras tem funcionado mais como uma vantagem ou como uma desvantagem ao longo da sua carreira?

Medindo bem, como uma desvantagem. As pessoas sempre me julgaram com alguma injustiça, nem sempre conscientemente, mas são as circunstâncias e o País que temos. Senti muitas vezes que só falavam comigo por ser filha de quem sou. Adoro os meus pais, mas ser sempre “o filho de…” dói muito. O meu nome acabou por ter uma carga negativa associada a algo que não tem nada que ver comigo, que rejeito e que exerceu sobre mim uma carga não merecida. Não sou revoltada nem tenho amargos de boca, mas se me pergunta, nunca fui beneficiada pelo meu apelido, muito pelo contrário.

O caso saco azul foi um momento difícil enquanto jornalista?

Foi difícil, mas não fui penalizada profissionalmente. Estava abatida e toda a gente acha que eu reagi com muita coragem. Só tens noção dos teus limites quando és obrigado a superá-los.

Como é a Sandra Felgueiras fora do ecrã?

Não tenho tempo para ir ao ginásio. (risos) Tento estar com os meus amigos e que não seja rotineiro. Tento ter uma vida normal dentro da anormalidade dos meus horários. Gosto de passear, adoro estar numa esplanada em frente do rio a beber um café. O excesso de trabalho faz-me olhar para as coisas com mais doçura.

Tem 33 anos. O que é que os 30 lhe trouxeram?

Aos 30 dei o meu pulo, com o caso Maddie. Foi um ano de grandes mudanças. Até aí tinha vivido quase exclusivamente para tentar resolver os dramas pessoais (e eram muitos!) e a partir daí quase vivi para o trabalho. De lá para cá cresci muito. Não me refiro a notoriedade, falo de equilíbrio e enriquecimento intelectual. Hoje sinto-me mais forte, mais segura. Sinto que sei o que estou a fazer.

11 de Março de 2011

in http://www.jn.pt/revistas/ntv/

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Fátima e Sandra Felgueiras

Fátima e Sandra Felgueiras na “Pública”

Ainda não estou em mim depois de ler o elogio-mascarado-de-entrevista que a Pública de hoje edita sobre Fátima Felgueiras (link indisponível). Há muito tempo que não me deparava com uma peça jornalística tão hipócrita: anuncia que não tratará do caso do saco-azul mas começa por resumir o saco-azul à sua caricatura e prossegue dando à famosa autarca todas as oportunidades para mostrar como “sofreu”, como “chorou”, como ia vendo a vida destroçada por uma coisa que nem se tem a frontalidade de dizer qual foi.
A par com o panegírico da “mulher-heroína” vem os elogios da mãe e de sua filha, a jornalista da RTP Sandra Felgueiras. Que, ao mesmo tempo, finge defender para depois acusar: ela não teria fugido para o Brasil se os filhos não a tivessem “empurrado”. “Fiz o que me pediram…”
Custa-me que um jornal que teve um papel determinante na denúncia do “saco azul” – apenas a ponta do iceberg, acrescente-se… – publique sem um mínimo de contraditório e de enquadramento um peça deste calibre. E custa-me ainda mais porque eu próprio fui processado (e absolvido, ao contrário de Fátima Felgueiras, que foi condenada no seu processo) e tive de ir várias vezes a tribunal. Numa das sessões assisti a cenas tão deprimentes que ainda hoje as posso descrever com minúcia. Vi, por exemplo, alguém assumir, sem remorsos nem hesitações, que participava em operações de entregas de notas embrulhadas em jornais no átrio dos Paços do Concelho. Vi a próprio Fátima Felgueiras sentar-se na audiência (acompanhada pela filha Sandra) durante o depoimento de algumas das principais testemunhas, interferindo de forma tão indecorosa no meu julgamento que o Juiz, meio aflito, chegou a ameaçar expulsá-las da sala.
O Portugal do compadrio e dos esquemas que, em todo o seu esplendor, se me revelaram durante aquela sessão do julgamento ainda hoje me dá pesadelos. É um Portugal com que não é possível conciliar, só é possível renegar. Por isso, quando vejo alguém que passa por uma “jornalista-intelectual” fazer perguntas como “Em que é que o Brasil a mudou? Parece mais leve e confiante”, só posso chegar a uma conclusão: Portugal, com estas supostas elites, não tem emenda. Nunca será um país moderno.

9 de Agosto de 2010

Por José Manuel Fernandes in http://blasfemias.net/

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