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	<title>Correio do Porto</title>
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	<description>...um mundo à parte!</description>
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		<title>Rui Lage (1975)</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 22:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citacoes]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Lage]]></category>

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		<description><![CDATA[País perdido no regaço da palha / sob o peso da luz e do pão, / tenho-te escrito e aberto nas mãos, / tenho-te perto da vista e longe / cada vez mais do coração.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/rui-lage.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-10290" title="rui lage" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/rui-lage-e1318546235263.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p><strong>A CARTA NA MÃO</strong></p>
<p>ao meu pai, Carlos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>País perdido no regaço da palha</p>
<p>sob o peso da luz e do pão,</p>
<p>tenho-te escrito e aberto nas mãos,</p>
<p>tenho-te perto da vista e longe</p>
<p>cada vez mais do coração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sobre os joelhos o fruto seco da carta,</p>
<p>a nódoa de veneno deixada</p>
<p>pelos insectos, a invasão dos vermes,</p>
<p>as unhas imundas que feriram</p>
<p>a polpa, o caroço onde guardo</p>
<p>os sinos da manhã.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O pátio na carta aberta,</p>
<p>a casa remota, perdida</p>
<p>após montes e montes deitados</p>
<p>sobre o perfume das hortas,</p>
<p>o eco das minas bebendo em sossego</p>
<p>o pensamento, a lentidão dos animais</p>
<p>que perduram na curva dos caminhos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na carta aberta o cimo das escadas,</p>
<p>o céu tranquilo as mãos na cintura,</p>
<p>a súplica de pó no rosto que olha</p>
<p>pedindo a mão pequena</p>
<p>para a borda da saia,</p>
<p>o primeiro dia de escola</p>
<p>para o colo do regresso.</p>
<p>Mas se morrermos agora,</p>
<p>no pátio ou no deserto, quem dará conta</p>
<p>do país perdido?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que me pede a carta nas mãos</p>
<p>cantando o país perdido?</p>
<p>Também aqui as cigarras cantam</p>
<p>mas estranhas aves amplificam</p>
<p>no tímpano sujo dos muros</p>
<p>o ar queimado da savana.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que faço na terra do marfim?</p>
<p>Porque não há cravos</p>
<p>na pequena horta da prisão?</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.arquivors.com/ruilage.htm" target="_blank">http://www.arquivors.com/ruilage.htm</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p><strong>ABOIO</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tinha um teclado barato</p>
<p>no recinto dos olhos</p>
<p>onde um loop eterno tocava</p>
<p>êxitos de ouro que o passado,</p>
<p>crendo-se futuro,</p>
<p>sem talento e sem contrato buscara.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sentada no muro cabisbaixo</p>
<p>a si mesma descia por</p>
<p>escada interior</p>
<p>e na subida me puxava</p>
<p>como água</p>
<p>do fundo de um poço.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para sua corte me chamava</p>
<p>e eu ia, cabeça de gado</p>
<p>numa só noite apreçada</p>
<p>e vendida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>[in Um Arraial Português, Ulisseia, 2011]</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-rui-lage/" target="_blank">http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-rui-lage/</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p><strong>Persiana</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Trespassa, furtiva, as persianas do quarto,</p>
<p>vem sondar o leito escuro da casa</p>
<p>no halo dos faróis que revela</p>
<p>a silhueta dos móveis,</p>
<p>e leva o sono contigo,</p>
<p>o sono teu inimigo,</p>
<p>aquele que parecia chegar</p>
<p>a cada silêncio na estrada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Trespassa, furtiva, as persianas do quarto,</p>
<p>venho contando os carros lá fora,</p>
<p>a insónia é um estado apetecido</p>
<p>e transpirado:</p>
<p>se o sono vier, promete,</p>
<p>farás o possível</p>
<p>por mantê-lo afastado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rui Lage</p>
<p>Revólver</p>
<p>Quasi Edições, 2006</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://mal-situados.blogspot.com/search/label/rui%20lage" target="_blank">http://mal-situados.blogspot.com/search/label/rui%20lage</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p><strong>JÁ PASSOU A PROCISSÃO</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Descamam as telhas sob o sol</p>
<p>punitivo, zunem fios de alta tensão,</p>
<p>a pele do empedrado tremeluz</p>
<p>(pois é lá que tudo ondula).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No pátio salivam mangueiras</p>
<p>de abraço constritor, a canícula</p>
<p>ferve cascas de melancia, brilham</p>
<p>botijas de gás no xisto mendicante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nas escadas alinhados</p>
<p>quais peças de artilharia,</p>
<p>um por degrau refulgem,</p>
<p>entre os versos,</p>
<p>os instrumentos da filarmónica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No ouro da tuba cabe o reflexo</p>
<p>do velho cão de companhia,</p>
<p>a gata reluz tubular</p>
<p>na esguia prata do clarinete.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depostas sobre a toalha</p>
<p>as boinas brasonadas</p>
<p>e de húmidos círculos estampado</p>
<p>o sovaco das camisas,</p>
<p>oponíveis polegares calejam</p>
<p>copos de tinto em formatura</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>e não te é dada permissão</p>
<p>para vestires blusa mais fresca,</p>
<p>não venha teu seio chamar-se</p>
<p>um figo sobre a mesa.</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-rui-lage/" target="_blank">http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-rui-lage/</a></p>
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		<title>Albano Martins (1930)</title>
		<link>http://www.correiodoporto.com/citacoes/albano-martins-2</link>
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		<pubDate>Sun, 19 Feb 2012 00:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citacoes]]></category>
		<category><![CDATA[Albano Martins]]></category>

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		<description><![CDATA[Dormir um pouco — um minuto, / um século. Acordar / na crista / duma onda, ser / o lastro de espuma / que há no sono / das algas.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/albano_martins.preto_.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-10531" title="albano_martins.preto" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/albano_martins.preto_-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></div>
<div style="text-align: left;"><strong>Dormir um Pouco&#8230;</strong></div>
<p><strong> </strong></p>
<div>Homenagem a Federico García Lorca</div>
<div>Dormir um pouco — um minuto,</div>
<div>um século. Acordar</div>
<div>na crista</div>
<div>duma onda, ser</div>
<div>o lastro de espuma</div>
<div>que há no sono</div>
<div>das algas. Ou</div>
<div>ser apenas</div>
<div>a maré, que sempre</div>
<div>volta</div>
<div>para dizer: eu não morri, eu sou</div>
<div>a borboleta</div>
<div>do vento, a flor</div>
<div>incandescente destas águas.</div>
<div>Albano Martins, in &#8220;Castália e Outros Poemas&#8221;</div>
<div style="text-align: center;"><a href="http://www.citador.pt/poemas/dormir-um-pouco-albano-martins" target="_blank">http://www.citador.pt/poemas/dormir-um-pouco-albano-martins</a></div>
<div style="text-align: center;"><strong> </strong></div>
<div style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></div>
<div><strong> </strong></div>
<div><strong>Uma Cidade</strong></div>
<div><span style="color: #464545;">Uma cidade pode ser<br />
apenas um rio, uma torre, uma rua<br />
com varandas de sal e gerânios<br />
de espuma. Pode<br />
ser um cacho<br />
de uvas numa garrafa, uma bandeira<br />
azul e branca, um cavalo<br />
de crinas de algodão, esporas<br />
de água e flancos<br />
de granito.<br />
Uma cidade<br />
pode ser o nome<br />
dum país, dum cais, um porto, um barco<br />
de andorinhas e gaivotas<br />
ancoradas<br />
na areia. E pode<br />
ser<br />
um arco-íris à janela, um manjerico<br />
de sol, um beijo<br />
de magnólias<br />
ao crepúsculo, um balão<br />
aceso</span></div>
<div>numa noite<br />
de junho.</div>
<div>Uma cidade pode ser<br />
um coração,<br />
um punho.</div>
<div><em>Albano Martins, in &#8220;Castália e Outros Poemas&#8221;</em></div>
<div><span style="color: #464545;"> </span></div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://www.citador.pt/poemas/uma-cidade-albano-martins" target="_blank">http://www.citador.pt/poemas/uma-cidade-albano-martins</a></div>
<div style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></div>
<div><strong>Cedo ou tarde</strong></div>
<div>Devias saber</div>
<div>que é sempre tarde</div>
<div>que se nasce, que é</div>
<div>sempre cedo</div>
<div>que se morre. E devias</div>
<div>saber também</div>
<div>que a nenhuma árvore</div>
<div>é lícito escolher</div>
<div>o ramo onde as aves</div>
<div>fazem ninho e as flores</div>
<div>procriam.</div>
<div>Albano Martins</div>
<div>Escrito a vermelho</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/albano_martins/poetas_albanomartins_cedooutarde01.htm" target="_blank">http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/albano_martins/poetas_albanomartins_cedooutarde01.htm</a></div>
<div style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</div>
<div>Tu choravas e eu ia apagando</div>
<div>com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas</div>
<div>– riscos na areia mole e quente do teu rosto.</div>
<div>Choravas como quem se procura.</div>
<div>E eu descobria mundos, inventava nomes,</div>
<div>enquanto ia espremendo com as mãos</div>
<div>o meu sangue todo no teu sangue.</div>
<div>Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.</div>
<div>Sei que tudo estava suspenso,</div>
<div>esperando não sei que grave acontecimento,</div>
<div>e que milhares de insetos paravam e zumbiam nos</div>
<div>meus sentidos.</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://plenitudedotempo.blogspot.com/2011/10/tu-choravas-albano-martins.html" target="_blank">http://plenitudedotempo.blogspot.com/2011/10/tu-choravas-albano-martins.html</a></div>
<div style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</div>
<div>O verão deixa,</div>
<div>como herança, ao outono</div>
<div>um leque de folhas secas.</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://docecomoachuva.blogspot.com/2010/11/haikai-albano-martins.html" target="_blank">http://docecomoachuva.blogspot.com/2010/11/haikai-albano-martins.html</a></div>
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		<item>
		<title>Daniel Costa, 29 anos</title>
		<link>http://www.correiodoporto.com/cultura/daniel-costa-29-anos</link>
		<comments>http://www.correiodoporto.com/cultura/daniel-costa-29-anos#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 17:40:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[DANIEL Costa começou a dançar aos 17 anos, tarde para o normal, mas os “pontapés do destino”, o apoio dos pais e perseverança transformaram-no no primeiro português no elenco principal da companhia israelita de dança contemporânea Kibbutz. Nascido no Porto e actualmente com 29 anos, Daniel Costa bailou por muitas actividades – piano, hipismo, natação e até mesmo artes marciais – até descobrir, aos 17 anos, a dança, uma paixão que se transformou numa profissão a tempo inteiro e que o fez “deixar de parte” um curso de engenharia que não era para ele, seguramente.
in http://porto24.pt/]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/daniel-costa.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-12363" title="daniel-costa" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/daniel-costa-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a></p>
<p>Daniel Costa começou a dançar aos 17 anos, tarde para o normal, mas os “pontapés do destino”, o apoio dos pais e perseverança transformaram-no no primeiro português no elenco principal da companhia israelita de dança contemporânea Kibbutz.</p>
<p>Nascido no Porto e actualmente com 29 anos, Daniel Costa bailou por muitas actividades – piano, hipismo, natação e até mesmo artes marciais – até descobrir, aos 17 anos, a dança, uma paixão que se transformou numa profissão a tempo inteiro e que o fez “deixar de parte” um curso de engenharia que não era para ele, seguramente.</p>
<p>“Se eu pudesse mudar alguma coisa, tinha começado a dançar mais cedo”, confessa, durante uma visita a Portugal, antes de partir para as digressões internacionais da Kibbutz.</p>
<p>Aos 20 anos, depois de conseguir “convencer” os pais a seguir dança – recorda, com um sorriso na cara, o dia em que mãe lhe perguntou: “acho isso interessantíssimo mas em que é que vais trabalhar?” –, Daniel carimbou o passaporte para a Holanda, país onde estudou 4 anos na Codarts, em Roterdão, e trabalhou outros 4, já em Amesterdão, com 2 coreógrafos.</p>
<p>Admitindo que, desde o início, a Holanda nunca foi um país com que se tivesse sentido “identificado”, o bailarino procurava um “país mais quente e mais mediterrâneo”, mas realça a dificuldade em encontrar trabalho nos países latinos: “A ver por Portugal, o que é que nós temos aqui? Muito pouco, não é?”.</p>
<p>E é nesta fase da vida de Daniel que os “pontapés do destino” – como o próprio diz – dão o empurrãozinho necessário para qualquer carreira de sucesso e o fazem chegar ao Kibbutz, uma companhia muito “conhecida no mundo da dança” e com a qual é difícil uma pessoa não se “cruzar”.</p>
<p>“Numa terça-feira disseram-me [a direcção em Amesterdão] que fosse a Israel, na sexta-feira, porque tinham vendido uma peça, lá, e precisavam de alguém que fosse ensaiar. Eu aceitei. Cheguei, ensaiei, gostei do ambiente, tive oportunidade de me cruzar com as pessoas e mostrei o meu interesse ao director e ele pegou em mim. Foi mesmo simples. Foi mesmo fácil”, descreve, com uma naturalidade que faz acreditar que ser o primeiro português na companhia principal do Kibbutz foi, de facto, “fácil e simples”.</p>
<p>Afirmando que, em Israel, o tratam como “europeu”, Daniel considera que aquilo que falta na dança em Portugal é aquilo que falta nos outros campos neste momento – “estabilidade” -, criticando aquilo que fizeram à Gulbenkian, que era “um grande estandarte português” antes de a terem “queimado” (o Ballet Gulbenkian foi extinto em Julho de 2005).</p>
<p>O bailarino, que ensaia uma média de 7 horas por dia, não se atreve a aconselhar alguém a sair de Portugal – “não é fácil comer a comida da mamã só uma vez por ano”, garante. Essa decisão “depende muito de cada pessoa”.</p>
<p>E quando lhe perguntamos se tem algum sonho no mundo da dança, a resposta de Daniel fecha, com chave de ouro e de optimismo, a entrevista: “Tenho a sorte, neste momento, de poder dizer que estou onde quero estar”.</p>
<p>19 de fevereiro de 2012</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://porto24.pt/" target="_blank">http://porto24.pt/</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Diogo Oliveira, 13 anos</title>
		<link>http://www.correiodoporto.com/cultura/diogo-oliveira-13-anos</link>
		<comments>http://www.correiodoporto.com/cultura/diogo-oliveira-13-anos#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 17:12:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[«ERA um sonho para mim entrar na Bolshoi.» E entrou. Aos 13 anos, Diogo Oliveira prova o doce sabor da vitória. O jovem portuense vai fazer o curso de verão da academia de ballet russa, nos Estados Unidos, em junho. Será o primeiro português a conseguir entrar na prestigiada instituição como convidado, ou seja, sem passar pelas criteriosas audições a que a maioria está sujeita. Já em abril, Diogo participa nas finais do Youth America Grand Prix, a maior competição mundial de escolas de ballet, também nos Estados Unidos.
in http://www.jn.pt/revistas/nm]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/ng1827059.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-12352" title="ng1827059" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/ng1827059-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a></p>
<p><strong>DIOGO OLIVEIRA</strong> tem 13 anos e foi convidado a fazer o curso intensivo  de verão da Academia de Ballet Bolshoi. É o primeiro português. Em junho, voa do  Porto para o Connecticut, nos EUA, onde decorre a formação do <em>ballet</em> de  Moscovo. Rapaz de poucas falas, trabalha mais de cinquenta horas por semana e  sabe muito bem o que quer. Tem, nomeadamente, a noção de que há muito trabalho  pela frente.</p>
<p>«Era um sonho para mim entrar na Bolshoi.» E entrou. Aos 13 anos, Diogo  Oliveira prova o doce sabor da vitória. O jovem portuense vai fazer o curso de  verão da academia de <em>ballet</em> russa, nos Estados Unidos, em junho. Será o  primeiro português a conseguir entrar na prestigiada instituição como convidado,  ou seja, sem passar pelas criteriosas audições a que a maioria está sujeita. Já  em abril, Diogo participa nas finais do Youth America Grand Prix, a maior  competição mundial de escolas de <em>ballet</em>, também nos Estados Unidos.</p>
<p>As coisas andam agitadas na Academia de Dança de Matosinhos, que Diogo  frequenta desde setembro de 2009, com 11 anos. Os professores e o aluno  desdobram-se em ensaios, pois a responsabilidade que o rapaz carrega é grande.  Tão grande quanto isto: da forma como se portar no curso de verão da Academia de  Ballet Bolshoi, em Middlebury, Connecticut, depende a entrada na casa-mãe da  academia russa, cujas origens remontam a finais do século XVIII. «Os professores  detetam os talentos no curso e podem convidá-los a estudar a tempo inteiro na  Academia Bolshoi em Moscovo», explica Alexandre Oliveira, um dos três  professores do Diogo.</p>
<p>Nada é certo ainda. «O Diogo pode ter essa sorte», diz o professor. «Embora  fosse interessante que ele tivesse acesso à melhor formação possível, com a  máxima qualidade desde cedo, a realidade é que ele é bastante novo.» Mas o que  conseguiu é já um grande feito. «É o primeiro português a ser convidado a  integrar o curso intensivo da Bolshoi», assegura Vítor Oliveira, o pai. O  convite para a Bolshoi foi dirigido por Larissa Saveliev, cofundadora e atual  diretora artística do Youth America Grand Prix, quando Diogo foi apurado para a  final desse concurso, que irá decorrer em Nova Iorque, entre 22 e 26 de abril. O  apuramento foi em novembro, nas meias-finais europeias, em Paris. De uma só vez,  Diogo assegurou a presença numa final mundial e a entrada direta para a escola  do Bolshoi &#8211; vai como bolseiro.</p>
<p>No curso de verão, Diogo vai ter aulas de técnica clássica, repertório,  caráter e <em>pas de deux </em>(nome dado ao trabalho de parceria entre uma  bailarina e um bailarino). A todas estas disciplinas da área da dança irão  juntar-se aulas de russo e artes. «Acho que vai ser muito puxado, mas vai ser  uma boa experiência também», diz o pequeno bailarino, que há tempos protagonizou  uma adaptação que a sua escola de <em>ballet</em> fez de <em>Pedro e o Lobo</em>,  história infantil contada através da música de Sergei Prokofiev. Orgulhoso?  «Sim, mas sei que ainda tenho muito trabalho pela frente», diz, com um realismo  pouco normal na sua idade.</p>
<p>O concurso a que Diogo vai no mês de abril, em Nova Iorque, funciona como uma  espécie de «bolsa de bolsas de estudo», na expressão de Alexandre Oliveira. Por  esse motivo, mais do que sair da final do Youth America Grand Prix medalhado,  importa que o bailarino português saia com convites para fazer formação.  «Interessa é que demonstre a sua capacidade e o seu talento. O objetivo final é  ele ter acesso a bolsas de estudo. Foi o que aconteceu na semifinal, em Paris»,  explica o professor.</p>
<p>O jovem dançarino está desde dezembro a preparar três apontamentos (dois na  vertente clássica e um livre) para levar à prova, em que vão competir centenas  de outros intérpretes do mundo inteiro. Chamam-se variações, ou solos,  provenientes de um repertório autorizado pela organização, como é habitual nos  grandes concursos internacionais. Assim, as prestações clássicas que Alexandre e  Sílvia escolheram para o Diogo são o solo masculino do <em>Grand Pas  Classique</em>, coreografia de Victor Gsovsky com música de Daniel Auber, e o  solo masculino de <em>Satanella</em>, na versão de Marius Petipa com música de  Cesare Pugni. São escolhas que visam demonstrar as capacidade de salto, rotação  e interpretação do jovem. Em termos de variação livre &#8211; em que se pretende,  normalmente, mostrar a versatilidade do intérprete, a forma como se adapta a  outros estilos -, o bailarino leva uma coreografia da responsabilidade dos seus  professores. Medalhas &#8211; e de ouro &#8211; já ele conquistou no Dançarte, concurso  internacional que tem lugar no Algarve e ao qual Diogo regressa no próximo mês.</p>
<p><strong>Começo por acaso</strong></p>
<p>Diogo entrou para a Academia de Dança de Matosinhos por um acaso. Foi  convidado por Alexandre Oliveira e Sílvia Boga &#8211; até então apenas tios e, de  então para cá, os seus professores da componente clássica (Diana Amaral assegura  a de dança contemporânea) &#8211; para fazer uma aula aberta. E ficou. Levou o irmão,  mas Francisco, um ano mais velho e muito mais adepto do futebol e da educação  física, não dava para o <em>ballet</em>. «Jeito&#8230; não sei se poderia vir a ter.  Mas não era, provavelmente, o que gosto mais», justifica Francisco, deixando que  o futuro brilhe para o Diogo: «Se continuar a evoluir, acho que vai chegar muito  longe.»</p>
<p>«Daqui a dez anos, julgo que o Diogo estará fora do país», atalha Maria da  Conceição Martins, a mãe. Apesar da surpresa que foi o convite para a Bolshoi,  Maria sempre acreditou no bom desempenho do filho, pois Diogo «dedica-se muito e  tem tido uma ótima evolução», também marcada pelo crescente interesse pela arte.  Seria muito importante que o filho se tornasse um grande bailarino? «Seria,  pois, como mãe, para mim é importante que ele seja feliz no que faz e que se  sinta realizado. A paixão do Diogo é a dança, e sei que o seu desejo é ser um  grande bailarino.»</p>
<p>Quase dois anos e meio depois de Diogo ter entrado na escola de Matosinhos,  Sílvia Boga afirma que ele «evoluiu de uma maneira incrível». Tem, obviamente,  capacidades físicas, mas uma boa parte do sucesso escreve-se com os termos  «predisposição mental». Há, portanto, este binómio a ter em conta: «Vontade tem  e o corpo também o ajuda muito.» Quanto ao facto de ser seu sobrinho, a  professora rejeita qualquer tipo de favorecimento. «Ele é visto como um aluno. A  relação do Diogo connosco é completamente diferente em casa e na escola. Em  casa, ele é muito divertido, extrai mesmo os seus sentimentos. Aqui, é muito  reservado, um aluno muito bem-comportado», diz.</p>
<p>Todos parecem ser bem-comportados nesta escola, onde há mais quatro meninos &#8211;  três pequeninos, de 6 anos, e o quase gigante Tomás, que frequenta a turma do  Diogo e tem a mesma idade dele. A todos, a professora pede rigor nas posições e  insiste na flexibilidade, sentando-se nas costas deles quando é necessário, ou  segurando numa perna que parece já querer soltar-se do corpo. E pede atenção à  música. «Isto bem feito é para doer tudo», avisa, voz firme, mas coração que se  adivinha de manteiga. «Isto não é desporto nenhum, é arte», novo aviso, desta  vez com um propósito muito certeiro. É que, como explica, o <em>ballet</em> tem  tanto de parte técnica como de parte artística. Por isso, Sílvia reclama  sorrisos. É que um professor merece-os tanto como o público.</p>
<p>A preparação de Diogo para o concurso de Nova Iorque começou em dezembro. De  então até abril, poderão ser milhares as repetições de cada passo de dança, para  aperfeiçoar as variações (também denominadas solos) que vai apresentar. «Está  numa fase bastante adiantada», diz Alexandre. O <em>ballet</em> vive muito da  espetacularidade, mas também vive muito do pormenor. «Cada movimento é estudado,  cada gesto é estudado ao ínfimo pormenor. E, nesta fase, estamos a trabalhar os  pormenores», acrescenta. E quanto a dificuldades? «As normais da idade dele» e  as «que são comuns a todos os bailarinos (mesmo a profissionais) e que são muito  específicas da técnica do <em>ballet</em>». Sendo mais concreto: «Determinados  pormenores de trabalho de colocação, da rotação externa, de trabalho de  pés.»</p>
<p>O trabalho, é bom de ver, é muito árduo e exige muita dedicação. Alexandre  acrescenta outro dado que parece ser irrefutável, ao dizer que nesta arte «a  perfeição não existe». E não se pense que é preciso começar no <em>ballet</em> muito cedo. «Dez anos não é tarde», garante o antigo bailarino, justificando ser  fundamental «o desenvolvimento em termos motores, de coordenação e de maturidade  muscular e intelectual». «Acontece que muitas crianças que começam com 4 anos  acabam por ganhar vícios.» Há o exemplo do russo Rudolf Nureyev (1938-1993), um  dos mais afamados bailarinos do século XX. «Começou com 15 ou 16 anos e até hoje  é considerado um dos bailarinos mais completos. Sylvie Guillem começou tarde,  também», conclui.</p>
<p>Diogo investe na academia uma média de vinte horas por semana. Somando o  tempo que passa na Clara de Resende &#8211; a escola do Porto onde frequenta o oitavo  ano -, a carga horária semanal andará perto das cinquenta. «Ele acaba por  trabalhar muito mais horas do que muitos adultos», garante Vítor Oliveira,  sorriso fácil, orgulho mal contido. «Quando alguém pretende seguir uma  profissionalização no <em>ballet</em>, no fundo significa que está a assumir o  compromisso de ter um estilo de vida diferente», diz Alexandre Oliveira, que  também foi profissional da dança clássica e sabe bem do que fala. Elenca as  restrições a que Diogo está sujeito, no dia a dia. A começar pelo tempo livre,  «consideravelmente mais reduzido». Depois, o descanso diário: o ideal são nove  horas de sono, «por uma questão de saúde e desenvolvimento, mas também como  prevenção de lesões».</p>
<p>A saúde também se preserva com uma alimentação equilibrada. Um regime que não  seja demasiado espartilhado e que, ao mesmo tempo, permita que o rapaz se  desenvolva de forma harmoniosa e obtenha «o melhor rendimento possível no  <em>ballet</em>». Mas, então, onde está o segredo? «A alimentação tem de ser  variada, não pode ser extremamente restrita», recomenda Alexandre, tendo em  conta a carga de treino que Diogo enfrenta diariamente. Quer isso dizer que pode  comer um hambúrguer volta e meia? «Evidentemente», diz. Na verdade, «não há  nenhum alimento proibido». Variedade e moderação são os condimentos  essenciais.</p>
<p>Diogo tem especiais cuidados com certas atividades físicas. Não que lhe  estejam vedadas, mas torna-se essencial prevenir acidentes, sobretudo quando se  aproxima a data de uma prova. «Ele pode praticar qualquer tipo de atividade  física», começa por dizer o professor, lembrando que há algumas em que os azares  são mais prováveis. «O Diogo ouviu falar disto uma vez ou outra e ele próprio  tem o cuidado de evitar grandes aventuras de bicicleta nas proximidades de um  evento. Mas lá está&#8230; pode lesionar-se num ensaio, pode lesionar-se na aula de  educação física, ou a atravessar a rua», conclui.</p>
<p>Diogo está no caminho para as estrelas. Ainda é cedo, tem tempo. O pai diz  que o filho tem perfeita consciência de que «isto é tão-só o início» e sabe que  «nada está ainda ganho ou garantido». Um passo de cada vez, como aconselha a  prudência, parece ser o caminho a seguir. «Ele desfruta naturalmente destes  pequenos/grandes sucessos, mas com a consciência de que, se tudo ficasse por  aqui, seria pouco mais do que nada». Como diz, citando uma máxima que ouviu há  anos e não mais esqueceu: «Olhos nas estrelas e pés bem assentes no chão.»</p>
<p><strong>PERFIL</strong></p>
<p><strong>Responsável e obstinado, mas uma criança feliz</strong></p>
<p>Nasceu redondinho. «Não era gordo, mas era um bebé redondinho», recorda o  pai. Também não era chorão. Comia, dormia, tinha as suas birras, mas nada de  extraordinário. «Era um bebé normal», acrescenta Vítor, que hoje vê no filho  mais novo um rapaz «extremamente autónomo, muito responsável e obstinado,  claramente obstinado». Até ao dia em que foi fazer aulas livres a convite dos  tios, Diogo nunca revelara qualquer aptidão para o <em>ballet</em>. «De maneira  nenhuma. Ele tinha aquelas brincadeiras normais de miúdos, com carrinhos &#8211;  gostava muito de provocar acidentes, de chocar com os carros contra os móveis &#8211;  e coisas dessas, e jogava à bola com o irmão, embora fosse o irmão a gostar mais  da bola.»</p>
<p>Diogo sai de casa sempre antes das 10 horas. Destino: ou a Escola Clara de  Resende (é aluno do 8.º ano), ou a Academia de Dança de Matosinhos. Quando não  está num sítio, está no outro até a noite cair. Mesmo ao sábado tem aulas de  <em>ballet</em>, por isso só resta o domingo para folgar&#8230; e, ainda assim, há  sempre estudos para pôr em dia. No recreio da escola, brinca, corre, «faz as  tropelias próprias da idade dele, porque é uma criança», prossegue o pai,  recusando a ideia de que o rapaz se fez homem antes do tempo. «Tem uma atividade  que leva a sério e, por esse lado, ele é mais adulto, por levar muito a sério  uma atividade que depende muito do empenhamento pessoal dele», justifica. Vítor  não vacila: «É, seguramente, feliz.»</p>
<p>Diogo veste de forma discreta. É adepto do FC Porto, tal como o irmão, mas  não é grande fã de futebol, nem sequer tem jogadores preferidos, seja no clube,  seja na seleção. Na escola, é um aluno com mais queda para as ciências e, em  casa, no pouco tempo que tem para se distrair, gosta de jogos de computador &#8211;  <em>Combat Arms</em> está entre os favoritos &#8211; e de ver filmes, sobretudo de  aventuras e comédias. A bicicleta é a sua aliada fora de casa.</p>
<p>Diogo nasceu na Maternidade de Júlio Dinis, a 25 de outubro de 1998. É o  terceiro filho de Vítor Oliveira, de 48 anos, e de Maria da Conceição Martins,  de 51. Vive com o pai (gestor de uma empresa familiar) e os irmãos: o Francisco  tem 14 anos e a Filipa tem 24. Extremamente reservado na presença de estranhos,  sobretudo se os estranhos são adultos, é também um rapaz com objetivos muito  definidos. A propósito, Sílvia Boga, professora de dança, conta: «Na escola, ele  não tinha qualquer problema em dizer que fazia <em>ballet</em>. Para ele é  indiferente. Se gosta, gosta. Se os outros não gostam, não quer saber.»</p>
<p><strong>Uma turma, três coincidências</strong></p>
<p>Escola Clara de Resende, Porto. Quis o acaso que à turma de Diogo fossem  parar duas meninas bailarinas &#8211; Beatriz Ferreira e Maria João Torrinha, ambas a  frequentar o Centro de Dança do Porto. Souberam que ele dança quando  participaram na gala comemorativa dos cinquenta anos da Escola Clara de Resende,  em 2010. Na altura, Diogo Oliveira não tinha mais do que seis meses de prática  de <em>ballet</em> e entrou no evento em representação da sua academia.</p>
<p>Os colegas, hoje já não estranham a sua escolha. Mas nem sempre foi assim.  «Achei que foi diferente. Não tinha conhecido nenhum rapaz que andasse no  <em>ballet</em>. Prontos, foi diferente», conta Diogo Aveiro, colega que conhece  Diogo desde os 6 anos. As miúdas também reconhecem que não é normal haver  rapazes bailarinos, pelo menos nesta idade, 13 anos. Até hoje, nenhum viu o  Diogo, diretamente, em palco. Elas só conseguiram vê-lo na televisão, no  referido espetáculo. Ele nem isso. «Nunca tive tempo de ir, porque eu também  tenho jogos», justifica o pequeno futebolista do Ramaldense. Ainda assim,  Beatriz adianta-se: «Se ele foi proposto para ir para a Bolshoi, é porque é  bom.»</p>
<p>Sobre o que outros rapazes da escola pensaram e comentaram quando souberam  que Diogo anda no <em>ballet</em>, Maria João generaliza, dizendo que «ficaram  espantados». Beatriz vai mais longe: «Normalmente, os rapazes acham que os  rapazes têm uma tendência homossexual quando vão para o <em>ballet</em>. Não é o  caso do Diogo.» Como se houvesse dúvidas, a mesma colega resolve comparar,  dizendo que «há rapazes que podem gostar de futebol e ter tendência  homossexual». O que a Beatriz foi dizer&#8230; «Eu acho que isso não é verdade. Acho  que os homens que jogam futebol são muito machos», Diogo Aveiro <em>dixit</em>.</p>
<p><strong>O fausto dos czares</strong></p>
<p>Em 1776, a imperatriz Catarina II da Rússia concedia ao príncipe Pyotr Urusov  o privilégio de organizar <em>performances</em> dramáticas a título privado.  Começava assim a ser escrita a história do Teatro Bolshoi, em Moscovo, que  absorveu o corpo de artistas que tinham fundado, três anos antes, a escola de  dança que está na génese do famoso Ballet Bolshoi. O primeiro edifício a  albergar o teatro ardeu em 1805, o que obrigou os atores a saltar de palco em  palco durante anos. Em 1824, o projeto do arquiteto Joseph Bové deu origem ao  imponente edifício de estilo neoclássico que hoje conhecemos, perfeito nas  proporções e em que a harmonia de formas anda de mão dada com a riqueza da  decoração interior. O pórtico de oito colunas da fachada, encimado por uma  estátua de Apolo numa carruagem, é uma das suas imagens de marca. Hoje é a sede  da Ópera Bolshoi e um dos teatros mais visitados do mundo, apesar de os  espetadores não poderem entrar de <em>T-shirt </em>ou calções. Nos últimos anos,  foi alvo de aturados trabalhos de reconstrução, tendo reaberto de cara lavada em  outubro passado.</p>
<p>19 de fevereiro de 2012</p>
<p>Por Isabel Peixoto. Fotografia de Leonel de Castro/GI</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://www.jn.pt/revistas/nm" target="_blank">http://www.jn.pt/revistas/nm</a></p>
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		<title>Ana Cristina Pereira (1975)</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 16:47:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/ANA_CRISTINA_PEREIRA.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-12372" title="ANA_CRISTINA_PEREIRA" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/ANA_CRISTINA_PEREIRA.jpg" alt="" width="200" height="181" /></a></p>
<p>“Tenho o mundo inteiro para aprender”, diz Ana Cristina Pereira, que dedica o seu tempo, muito tempo, e alma aos dramas de uma cidade que o cidadão comum nem sempre quer conhecer. Contabiliza-se em anos o tempo passado nos bairros problemáticos do Porto, convivendo de perto, lado a lado, com problemas sociais e humanos. Foi no ambiente quente do café do Parque da Cidade, sítio de eleição para Ana, que a jornalista do “Público” contou ao P24 quem são os “Meninos de Ninguém” (livro de 2009) e por que histórias como as que registou em “<a href="http://porto24.pt/vida/03072011/viagens-brancas-ana-cristina-pereira/" target="_blank">Viagens Brancas</a>” (2011) a levam a dizer que é feliz.</p>
<p><strong>Conhece bem o Porto profundo, aquele em que nem as pessoas que cá nasceram e onde viveram uma vida inteira chegam algum dia a conhecer. Os dramas da cidade são escondidos?</strong></p>
<p>Não há só uma cidade, há várias. Há um centro histórico envelhecido, degradado, esvaziado; uma zona oriental muito marcada pelos processos de industrialização e de desindustrialização, com uma grande concentração de ilhas e de bairros sociais, de gente pouco escolarizada, com fraca formação profissional; e uma zona ocidental mais integrada, que está melhor na vida, embora nela também existam ilhas e bairros sociais. Em todas estas cidades há partes mais visíveis e mais invisíveis. Mesmo numa freguesia como a Foz há bolsas de pobreza, zonas onde o cidadão comum não passa, que não conhece, que não quer conhecer.</p>
<p>O Luís Fernandes [professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e colunista do P24] chama-lhes “as traseiras da cidade”. São lugares que ficam à parte. Ninguém é obrigado a ir ao Aleixo, à Pasteleira, ao Cerco ou ao Lagarteiro. A certa altura, houve uma tentativa de alterar isso, de fazer cidade. A Pasteleira, por exemplo, tem um parque urbano muito bom, onde as pessoas podiam fazer as mesmas coisas que fazem neste parque onde estamos. Mas o facto de aquilo ficar entre a Pasteleira e o Pinheiro Torres faz com que quem é de fora tenha medo de usar aquele espaço.</p>
<p><strong>Com o seu último livro, “Viagens Brancas”, como também com o “Meninos de Ninguém”, quer dar a conhecer as realidades problemáticas destes bairros? </strong></p>
<p>Eles têm objectivos diferentes. Embora também aborde o fenómeno das drogas, o “Meninos de Ninguém” tenta mostrar como é crescer em territórios críticos. Há, por exemplo, um menino que não consegue adormecer às 9 ou 10 da noite porque o tráfico, em frente à sua janela, não o deixa. Dura até à 1 da manhã. E se fôssemos nós? Como é que nós seríamos?</p>
<p>Há uma história que marcou a cidade do Porto, e de alguma forma marcou o país, que é a da Gisberta. É uma história de uma grande violência. Como é que aqueles miúdos foram capazes de torturar um ser humano dias-a-fio e de o atirar para um poço? É disso que vou à procura. Em que circunstâncias estes miúdos cresceram?</p>
<p>Em relação ao “Viagens Brancas”, o objectivo foi colocar-me no lugar de uma mãe que tem um filho que consome cocaína e que não sabe nada sobre isso. Quis, através destas 12 histórias, mostrar a essa hipotética mãe como é que tudo acontece, dar a conhecer todo o processo. Onde começa, os vários estados, os tipos de resposta. Os vários tipos de consumo, controlado ou não, casos em que se vence o vício e casos onde se perde tudo.</p>
<div>
<p>Foto: Rita Braga</p>
</div>
<p><strong>São estes temas que a atraem enquanto jornalista?</strong></p>
<p>Trabalho essencialmente exclusão social e direitos humanos, mas a verdade é que não escolhi trabalhar estes temas. Foi algo que aconteceu com muita naturalidade. Lembro-me de ser estagiária no “Público” e de fazer trabalhos sobre kosovares refugiados e de saltar o murro de uma fábrica ocupada por toxicodependentes com o Paulo Pimenta. Tenho acima de tudo um certo gosto por tentar perceber a história para além da história.</p>
<p><strong>Dar voz a quem normalmente não se consegue fazer ouvir ou vive uma situação de fragilidade extrema?</strong></p>
<p>Também. Sem qualquer tipo de pretensiosismo, gosto de ouvir as pessoas que estão directamente implicadas nos problemas. Para mim, não tem sentido falar sobre abandono escolar precoce sem ouvir os miúdos que abandonaram a escola e saber o porquê, perguntares-lhe porquê, perceber o fenómeno focado em 4 ou 5 miúdos, vê-los no seu contexto e dar-lhes voz, saber por que é que não gostam da escola, por que não querem lá estar… No caso do “Viagens Brancas”, falar com traficantes…</p>
<p><strong>No “Viagens Brancas”, vai mais longe: dá essa voz não só a vítimas.</strong></p>
<p>O papel da mulher na questão das drogas é muito diverso, as mulheres podem estar na produção da folha de coca, podem estar nas redes de tráfico e podem consumir. E, em cada uma destas 3 fases, podem desempenhar distintos papéis. Numa rede de tráfico podem ser líderes, como o caso da Zani, que era a número 3 de uma rede de tráfico internacional, muito vistosa, com muito poder de compra; e depois temos, por exemplo, uma mãe que trafica para dar droga a 2 filhos toxicodependentes, para evitar que a filha se prostitua, ou que o filho vá roubar, que é uma forma muito feminina de viver o tráfico. Eu nunca conheci nenhum homem que traficasse pelos filhos, mas já conheci várias mulheres presas por tráfico por causa dos filhos consumidores.</p>
<p>Como no que diz respeito ao consumo, também temos vários tipos: há o consumo recreativo, festivo, controlado, e temos o consumo problemático, mas ainda enquadrado numa família, e depois o consumo já completamente desestruturado, em que se perdeu o emprego, não há ligação à família, não se tem casa e vive-se numa fábrica desactivada, abandonada e sem condições básicas de sobrevivência.</p>
<p><strong>O Bairro São João de Deus foi demolido, a demolição do Aleixo já começou. Como avalia esta política de combate ao tráfico de droga no Porto?</strong></p>
<p>As pessoas não deixam de consumir porque um bairro foi abaixo. Enquanto houver quem compre há quem venda. E se não é num sítio é noutro. Isto acontece em qualquer parte do mundo.</p>
<p><strong>Porque se insiste nessa política?</strong></p>
<p>Isso tem de perguntar à autarquia [risos]. Por exemplo, o bairro S. João de Deus na sua pior fase tinha um sítio que se chamava o Vale dos Leprosos, que era onde estavam as pessoas em fim de linha, num nível de degradação tão avançado que já não conseguiam sair dali. E vendiam limões, seringas, cigarros, eram capeadores, ou seja, estavam ali a angariar clientes para o traficante, a alertar para a presença da polícia.</p>
<p>Lembro-me de, em 2002, ler um artigo sobre a primeira ida de Rui Rio a este local e ele ficou impressionado. Era impossível não ficar. A solução que ele encontrou foi deitar abaixo o bairro S. João de Deus. Não quero pensar que há interesses obscuros atrás dessas opções. Prefiro pensar que há ingenuidade. Haverá, talvez, um ideal que leva a uma certa higienização da cidade. Ora, não há milagres. Uma vez, ouvi o Agostinho Rodrigues, presidente da Associação Norte Vida, dizer que os toxicodependentes são como os pássaros: abana-se uma árvore, voam para outra.</p>
<p><strong>Em “Viagens Brancas”, conta a história de uma fábrica desactivada que se transforma na casa de dezenas de toxicodependentes…</strong></p>
<p>A fábrica é um sítio onde fui ao longo de 6 ou 7 semanas. A aproximação é gradual. Aquela é a casa daquelas pessoas. Eu não entro sem autorização, como ninguém entra na minha casa sem a minha autorização. E nestes processos, às vezes, criam-se laços. Cheguei a dar por mim no supermercado a comprar tinta para o cabelo, porque sabia que a Carla precisava de tinta para pintar o cabelo. A Carla, como outras pessoas que acompanhei, passara a fazer parte da minha vida. Estas pessoas dão-me muito… Sinto que é um privilégio enorme conhecer estas pessoas, que muitas vezes estão em situações limite, de pobreza extrema, e que me dão verdadeiras lições de dignidade, de resiliência…</p>
<p><strong>É isso que leva para casa?</strong></p>
<p>Tenho noção de uma coisa: eu sou uma pessoa feliz. Aprendi com estas pessoas a relativizar os meus problemas, foram estas pessoas que me deram a capacidade de o fazer. Sinto que não tenho o direito de me queixar.</p>
<p><strong>A Ana Cristina Pereira nasceu na Madeira, formou-se em Braga e fixou-se no Porto. Foi um acaso?</strong></p>
<p>Não, não foi por acaso. Cresci em S. Vicente, na Madeira. Costumo dizer que São Vicente é a minha aldeia e o Porto é a minha cidade. A primeira vez que vim ao Porto teria 15 ou 16 anos. Lembro-me de dizer: “esta é a minha cidade, é aqui que eu quero morar”. Gosto do rio e do oceano a traçar as fronteiras, da neblina matinal, da luz difusa, do carácter, da forma como a cidade se revela. Não é uma cidade hipócrita, não é uma cidade de fachada, é o que é! E orgulha-se de ser o que é. O Porto não se disfarça, mostra-se como é – belo e feio, delicado e rude, antigo e moderno.</p>
<p><strong>Costumo perguntar se os prémios literários são os aplausos dos escritores. Neste caso, perguntaria se espera aplausos com estes livros?</strong></p>
<p>Não! O que eu espero dos meus livros é que eles sirvam para as pessoas conhecerem melhor estas realidades. Alertar para a realidade das crianças e jovens em risco, alertar para a realidade do consumo e tráfico de drogas. O jornalismo, para mim, é aprendizagem constante. Dá-me a noção cada vez maior de que não sei nada! Quanto mais percorro as ruas da cidade, mais percebo que o que sabemos é uma pequena parte da realidade. Tenho o mundo inteiro para aprender.</p>
<p><strong>Como é um dia perfeito para si passado na cidade?</strong></p>
<p>Um dia perfeito inclui andar a pé. Se estiver de folga, no Porto, gosto de cruzar o Parque da Cidade e de seguir pelo passadiço junto à frente marítima. A certa altura, sento-me numa esplanada a ler jornais. Mas um dia perfeito, mesmo que seja de folga, tem trabalho. O jornalismo é um vício. Escrevo todos os dias.</p>
<p>18 de fevereiro de 2012</p>
<p>Por Sónia Pessoa</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://porto24.pt/" target="_blank">http://porto24.pt/</a></p>
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		<title>Entrevista de Manuel António Pina ao i</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 03:09:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Manuel António Pina]]></category>

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		<description><![CDATA[TEM um pensamento torrencial. É difícil não sucumbir ao encanto, ao humor, à inteligência e às histórias. Consegue defender o cepticismo da forma mais apaixonada, tornando-o quase o seu inverso. Não acredita em milagres, mas faz tudo para que eles aconteçam. A conversa começou pouco religiosa sobre a relação entre os intelectuais e os políticos. Já não me lembro da primeira pergunta, mas a primeira resposta foi a que se segue. Um dia o Sócrates telefonou-me, eu tinha escrito uma crónica em que falava das declarações do então treinador do Benfica, Camacho, que garantia que o clube jogava bem mas não metia golos. Relembrei que o objectivo do futebol não era “jogar bem”, mas meter golos, nem que seja com a mão. Comparava a situação com a do governo, dizendo que estava tudo óptimo, com o pequeno problema de não funcionar. Estava em casa e o telefone tocou. in http://www.ionline.pt/]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter">
<div id="attachment_10687" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/365-manuel-pina-1-bafa.jpg"><img class="size-medium wp-image-10687" title="365-manuel-pina-1-bafa" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/365-manuel-pina-1-bafa-300x197.jpg" alt="" width="300" height="197" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Lucília Monteiro</p></div>
</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter"><strong> “A vontade que tenho era pôr um cinturão de bombas e rebentar com essa malta toda”</strong></div>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: left;">Tem um pensamento torrencial. É difícil não sucumbir ao encanto, ao humor, à inteligência e às histórias. Consegue defender o cepticismo da forma mais apaixonada, tornando-o quase o seu inverso. Não acredita em milagres, mas faz tudo para que eles aconteçam. A conversa começou pouco religiosa sobre a relação entre os intelectuais e os políticos. Já não me lembro da primeira pergunta, mas a primeira resposta foi a que se segue.Um dia o Sócrates telefonou-me, eu tinha escrito uma crónica em que falava das declarações do então treinador do Benfica, Camacho, que garantia que o clube jogava bem mas não metia golos. Relembrei que o objectivo do futebol não era “jogar bem”, mas meter golos, nem que seja com a mão. Comparava a situação com a do governo, dizendo que estava tudo óptimo, com o pequeno problema de não funcionar. Estava em casa e o telefone tocou. Atendi – ainda bem que fui eu, a minha mulher teria decerto descomposto o tipo a pensar que era um brincalhão – e escutei uma voz: “Daqui José Sócrates.” Ainda na dúvida se não era alguém a gozar comigo, ouvi: “Venho protestar consigo na minha qualidade de benfiquista e já agora de socialista”, e convidou-me a ir almoçar a S. Bento. Vou-lhe dizer uma coisa, ele surpreendeu-me. Olhe que a certa altura até me citou o Ruy Belo, e apropriadamente, com uma citação certa. Estava acompanhado daquele tipo que vinha do SIS, o Almeida Ribeiro, a partir daí telefonava&#8211;me muitas vezes. Eu sei que ele fazia isso a várias pessoas, porque quando morreu o Eduardo Prado Coelho li uma declaração em que ele dizia: “Era uma grande pessoa, uma grande figura, e até tinha um almoço marcado com ele.” Garanto-lhe que aquilo funcionava. Continuei a dizer o que pensava, mas durante uns tempos não escrevia “José Sócrates”, mas “primeiro-ministro”, para desfulanizar, como dizia o António Sérgio. Começámos a afastar-nos quando ele, num discurso que fez no Norte, em 2008, no início da crise do subprime, garantiu que os portugueses deviam estar seguros de que a Segurança Social não especulava com o dinheiro das pessoas como as economias de casino. Eu com aquele péssimo hábito que tenho de jornalista, fui confirmar as coisas, consultei o site da Segurança Social e vi que 80% dos fundos estavam aplicados em acções. Ele tinha dito expressamente que não se aplicava dinheiro em acções e não era verdade.</div>
<div><strong>Os políticos, além de tentarem seduzir os intelectuais como o Manuel António Pina, também os castigam?</strong></div>
<div>Vou dizer-lhe uma coisa: é mais comum a sedução. O único político que me lembro de me mostrar algum desagrado foi o Sampaio. Senti isso depois de escrever uma crónica quando ele foi a Barrancos, durante a guerra sobre as touradas de morte. É preciso lembrar que foi a posição dele que ajudou muito a legalizar aquela excepção, dizendo, em Barrancos, que o povo quer as touradas de morte. E eu escrevi uma crónica citando o Mário Cesariny, dizendo: “Vem ver o povo que lindo é/ vem ver o povo dá cá o pé.” Passado uns tempos atribuíram-me uma condecoração. Fui lá recebê-la, em Guimarães, pensei em não aceitar delicadamente, mas a minha mulher disse-me que fosse. A minha mulher é fantástica, deve ser a única pessoa que nunca escreveu um poema na vida, nunca tentou escrever “alma” a rimar com “calma” e “água” com “mágoa” e apesar de não gostar de poesia faz-me uma espécie de edição. Às vezes escrevo um poema e ela diz-me o que acha, e normalmente tem razão. E sobre eu não querer aceitar a condecoração disse-me: “Lá estás tu a pôr-te em bicos dos pés.” E tinha razão. No dia aprazado, Sampaio pôs-me o penduricalho e eu agradeci. E ele disse-me assim, com aquela cara severa que o homem tem, “não me agradeça a mim, agradeça ao Estado”. E eu disse-lhe: “Ó senhor Presidente, mas como não tenho o Estado à mão, agradeço-lhe a si.”</div>
<div><strong>Está um bocadinho desencantado?</strong></div>
<div>Estou muito. Eu não tenho nenhuma fé. Mas escrevi recentemente uma crónica chamada “O que fica depois do que se perde”, sobre o filme “A Palavra”, do Dreyer. É uma história sobre a fé. Conta a vida de um luterano que tem três filhos, o mais velho é ateu, o segundo tem uma loucura mística, convence-se que é a reencarnação de Cristo, e o terceiro, o pai tenta casá-lo com uma rapariga de outra seita protestante. Todos consideram louco aquele que se julga Cristo, eu até escrevi na crónica loucura entre aspas, para acrescentar uma nota em que dizia que sou céptico, mas sou céptico em relação ao próprio cepticismo, mas depois acabei por tirar as aspas porque já não tinha espaço para as explicar. A certa altura do filme, a mulher do filho mais velho, ateu, morre, e as duas crianças pedem ao tio que ressuscite a mãe, porque têm aquela fé pura e sem limites acreditam nisso – é das cenas mais comoventes da história do cinema – e ele ressuscita-a. As únicas pessoas que não ficam surpreendidas são as duas crianças. É curioso que eu que não tenha fé nenhuma, mas quando vejo coisas daquelas sinto uma espécie de melancolia. É a sensação que têm os amputados que sentem a perna que já não têm.</div>
<div><strong>Não acha que esse desencantamento é fruto de um sentimento de impotência? Muitos textos seus fazem esse contraponto entre as esperanças de uma geração dos anos 60 e o abastardamento da maioria dessas pessoas no presente&#8230; </strong></div>
<div>Isso não gera naturalmente impotência, a não ser nos impotentes. Eu cito muitas vezes uns versos do João Cabral Neto, na “Morte e Vida Severina”, que dizem assim: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos e abandoná-las para trás.” E eu sou uma pessoa que atira as mãos para a frente. O meu cepticismo é mais em relação ao ser humano e sobretudo em relação a todos os tipos de optimismo. Às vezes inverto aquela máxima e digo que o optimista é um pessimista mal informado. Eu sujo as mãos, mas faço-o descomprometidamente. Estávamos a falar da descrença, mas eu sinto&#8211;me completamente revoltado. Às vezes digo: a vontade que tenho era pôr um cinturão de bombas e explodir com essa malta toda. Quando vejo tratar mal alguém mais vulnerável, um velho, uma mulher, uma criança ou um animal, sou capaz de fazer mal…</div>
<div><strong>Mas não acha que, como no filme, é preciso acreditar para que as coisas aconteçam?</strong></div>
<div>Não acredito em milagres. Digo que aquilo é muito bonito, é belo. E senti a necessidade de pôr um parênteses: a beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto. Quanto à verdade, tenho dúvidas que exista. Isso da beleza não é uma constatação minha. No outro dia estava a ver uma entrevista do Prémio Nobel da Física Steven Weinberg, em que ele dizia que a teoria das cordas era tão bonita que tinha de ser verdadeira. É um físico que diz isto, não é o místico. Sei que a literatura e a arte são formas e não a confundo com a realidade prática. Já tenho dito que sou um pouco religioso, no sentido mais estritamente literal da palavra.</div>
<div><strong>A poesia não é uma forma de religião. Não é uma negação da realidade?</strong></div>
<div>Não necessariamente. No outro dia disse uma coisa com que concordo, nem sempre isso me acontece. Estive a reler uma entrevista minha à “Ler”, e exclamei: “Eu disse isso?” Fiquei contente. Achei que tinha dito uma coisa acertada. Nem pareço eu. A propósito do Joaquim Manuel Magalhães falar do regresso ao real, disse: “Mas há alguma coisa que não seja real? Tudo é real. O problema é que há muitas realidades. O sonho é tão real como estar acordado.” De facto, nós sentimos efeitos físicos dos sonhos, dos desejos, dos medos, das esperanças. É tudo real. Digo-lhe mais, os mitos – e não estou a falar dos mitos gregos, que são arquétipos da realidade humana – são forças reais: não há nada mais mobilizador que um mito. O mito da greve geral dos trabalhadores é mobilizador. O mito de uma sociedade sem classes também mobilizou milhões de pessoas ao longo da história.</div>
<div><strong>Nas suas crónicas fala repetidamente da expulsão dos poetas da polis e opõe os economistas aos poetas. O que significa isso? </strong></div>
<div>O economista no sentido em que eu o trato são uma espécie de núncios e arautos dos mercados. Escrevi uma crónica contra esses economistas, os que em geral têm acesso às televisões. Não são todos. Eu frequento um blogue de economistas que se chama Ladrões de Bicicletas, em que se fala de outra forma. Curiosamente, o título não remete para a economia, mas para a arte e o cinema. Não sou tão insano que não saiba que as realidades económicas existem, o que me parece é que lá por serem realidade não são necessariamente verdadeiras.</div>
<div><strong>É possível fazer poesia nos tempos da troika?</strong></div>
<div>Acho que se calhar até é obrigatório. Tenho um amigo que está a fazer um livro de poemas sobre isso, o João Luís Barreto Guimarães. Por acaso a minha poesia não é muito desse género, mas no outro dia coloquei num poema, aqui nuns caderninhos [procura o dito], meti qualquer coisa sobre aquela frase do Passos Coelho sobre a democratização da economia, a propósito da precariedade da existência e do absurdo. Compreendo que os seres humanos procurem sempre um sentido ou um destino. É duro de mais saber que se existe para nada. São os grande problemas filosóficos. Aquelas perguntas que nos fazem os nossos filhos: onde estava eu antes de ter nascido? O que nos acontece depois de morrer? São esses os grandes problemas filosóficos a que todos procuram responder: de onde vimos e para onde vamos. Toda a arte e toda a literatura reflecte isso. O Borges diz que toda a arte se resume a dois temas: o amor e a morte&#8230; e o tempo. O amor através do sexo está ligado ao abismo antes e a morte ao abismo do ser do depois, ao seu desaparecimento. São uma espécie daquilo que os astrónomos chamam horizontes opacos, a partir dali não se pode ver o antes e o depois. É natural que os homens se interroguem. Toda a arte, como toda a filosofia, são interrogativas.</div>
<div><strong>Manuel António Pina opõe o poeta ao economista, mas também a infância à idade adulta, em que a infância aparece como um sítio, quase um paraíso perdido&#8230;</strong></div>
<div>Eu sei. Nós quando somos pequenos queremos ser grandes rapidamente. Mas na infância os poetas invejam a capacidade de ver pela primeira vez. A poesia é também uma forma de olhar de novo. A infância é mítica porque é a capacidade de olhar profundamente pela primeira vez. Para mim, é a melancolia de um momento mítico – mítico até porque parece que já nascemos com a estrutura para a linguagem no cérebro – da relação com as coisas sem intermediação da linguagem. A linguagem afasta-nos do mundo. Nós já nascemos como seres condenados à linguagem, como provam os trabalhos do Chomsky, mas tenho um poema num livro, “Lugares da infância”, em que se fala daquela possibilidade de ter uma relação com o mundo sem essa intermediação. No meu caso a ideia de infância é uma busca desse momento inicial sem nenhuma palavra e nenhuma lembrança em que nós somos também mundo.</div>
<div><strong>Há uma certa ironia em ser oficial de uma profissão, a de jornalista, em que se faz a mediação com os outros através da linguagem&#8230;</strong></div>
<div>Mas eu dou-me bem com as duas situações. Há uma coisa que me seduz muito, é o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Sou um leitor apaixonado de livros de divulgação, quer sejam sobre a astronomia, quer sejam sobre a física de partículas. Leio muitas coisas dessas. Sabe porquê? Porque são aqueles momentos em que a nossa linguagem é posta em crise. Digo às vezes, simplificando, que, se a malta que anda a meter heroína lesse um livro de astronomia, sentiria uma pedrada muito mais forte. Imaginar uma distância daqui até Alfa do Centauro, vários anos-luz, é como calcular a nossa dívida pública, é difícil de abarcar. É curioso que estes livros de divulgação tenham a necessidade, para expressar esta realidade, de usar a linguagem poética. Há a célebre experiência do gato de Schrödinger, em que ele defende que um fenómeno só existe depois de ser observado. Só sabemos se o gato que está na caixa está vivo ou está morto quando a abrimos. Até esse momento há metade de probabilidades de que esteja vivo e metade de que esteja morto. Nós é que construímos de facto a realidade através da observação, nós é que lhe damos sentido. Quando observamos não conseguimos tirar a nossa consciência como quem tira um sobretudo. Nunca saberemos como é o mundo real, e até que ponto ele coincide com aquele que construímos através da observação e com recurso à linguagem. Ao longo da história há muitos exemplos de que essa observação não era correcta. A infância é para mim esse momento de coincidência de nós com o mundo. É o problema do amor: nunca conseguimos alcançar o outro. Damo-nos mais com as pessoas com quem nos escapa sempre alguma coisa. Mas em relação ao jornalismo, quando observamos a nossa galáxia, percebemos que é uma entre milhões, que o nosso sistema está num braço modesto da galáxia e que o nosso planeta se encontra entre biliões de outros. Esta normalidade dá-me uma sensação de imensa paz, porque me permite relativizar-me a mim e aos meus problemas. Aprendi com os grandes tipógrafos, às vezes estava na chefia de redacção cheio de problemas com os títulos e eles diziam&#8211;me: “Não se preocupe que amanhã isto é para embrulhar o peixe.” A dimensão do infinitamente grande e do infinitamente pequeno dá-nos a consciência de que tudo é para embrulhar peixe.</div>
<div><strong>Mas isso remete para a questão clássica da filosofia, perante essa espécie de morte de Deus na imensidão do cosmos: porque raio de razão faremos nós o que quer que seja?</strong></div>
<div>A grande dignidade da vida e do jornalismo está em ter a consciência plena de que aquilo acaba a embrulhar peixe, mas fazê-lo o melhor possível em cada momento. Fazer o mais honesto, empenhar-se ao máximo, sabendo que é completamente irrelevante. É essa a grandeza do ser humano.</div>
<div><strong>Mas não há nenhuma forma humana de transcendência?</strong></div>
<div>Não acredito na transcendência, a não ser nessa: a consciência de ter uma pulsão para ir além de nós mesmos. No nosso caso concreto, é fazer o melhor possível aquilo que sabemos que no dia seguinte desaparece. É a nossa forma de transcendência.</div>
<div><strong>[Momento em que o fotógrafo Ricardo Castelo pergunta se é possível marcar fotografias para amanhã, com gatos.]</strong></div>
<div>Vou dizer-lhe uma coisa. Se quiser tirar, eu vou. Costumo dizer que à primeira digo sempre que não, mesmo que queira, e à segunda digo sempre que sim, mesmo que não queira. Tenho o hímen complacente. Estou tão farto de ver fotografias de gatos, é um cliché a meu respeito. Costumo dizer que há dois tipos de fotografias de escritores: ou com mão no queixo ou com livros atrás, e no meu caso é com gatos. Se puder evitar, peço&#8211;lhe que o faça.</div>
<div><strong>Há a hipótese de tirarmos uma fotografia de um gato a ler um livro seu?</strong></div>
<div>[Risos.] Eu tenho uma fotografia com um gato do Manuel Resende a ler um livro meu. Tenho-a aí, ele estava a traduzir uma obra minha em francês, o Manuel Resende e não o gato, e o bicho adormeceu em cima dos meus poemas.</div>
<div>Continuando, isso da impotência não há. Eu não consigo deitar as mãos para trás, como se fala no poema do João Cabral Neto. Faço as coisas. É uma frase feita das minhas, daqueles bordões a que a gente se agarra, mas defendo que o mínimo que nos é exigível é o máximo que podemos fazer.</div>
<div><strong>Há quem diga que o jornalismo tende a matar a inteligência. E a arte, não sente isso?</strong></div>
<div>Há bastante gente que diz isso. Também a propósito da infância vou citar-lhe um poema meu: “Um tempo houve em que,/de tão próximo, quase podias ouvir/o silêncio do mundo pulsando/onde tu eras mundo, coisa pulsante.” Está a ver, isto é a minha ideia de infância. “Extinguiu&#8211;se esse canto/não na morte/mas na vida excluída/da clarividência da infância/e de tudo o que pulsa,/fins e começos,/e corrompida pela estridência/e pela heterogeneidade”, aqui onde estava “heterogeneidade” eu tinha escrito “jornalismo”. Tinha: “corrompida pelo jornalismo”, mas acabei por não pôr, porque é limitativo. Mas é verdade que um dos limites do jornalismo está na estridência. Mas para um jornalista e um escritor (costumo dizer que é uma roupa que nunca me serve bem e poeta muito menos, jornalista acho que me serve melhor) a matéria-prima é a mesma: a palavra escrita. Estas duas formas de escrita: uma para comunicar e outra para criar realidades, para convocar o mundo, têm muitos pontos de contacto. Uma coisa que eu aprendi no jornalismo é a humildade. Se conhece escritores, sabe que normalmente são tipos que acham que é fundamental aquilo que escrevem. No caso do jornalismo, como sabemos que aquilo que escrevemos no dia seguinte está a embrulhar o peixe, não é assim. No jornalismo aprendi essa humildade fundamental. Tenho de escrever, nas minhas crónicas, 1400 caracteres, o morto à medida do caixão – agora tenho-lhes metido o IVA, como aumentou, escrevo 1420. E meti-lhe o IVA baixo. Depois de escrevermos uma coisa, o coordenador corta e altera o título. O jornalismo é um trabalho colectivo. Isso dá-nos uma grande modéstia. O Luiz Pacheco dizia que daqui a cem anos ninguém se lembra. Qual daqui a cem anos&#8230; Mesmo na altura já ninguém se lembra. Os escritores têm muita dificuldade em aceitar que tudo acaba por se esquecer. Tudo tende para o esquecimento. Mas há mais relações, o jornalista aprende com o escritor o respeito pelas palavras, sabendo que há palavras que se dão com as outras, e outras não. Não calcula o tempo que demoro a escrever aquela merda com 1400 caracteres. Leio aquilo tantas vezes&#8230; Volto atrás e vou para a frente. Só a trabalheira de arranjar assunto. Eu espontaneamente só tenho opinião uma vez por ano, agora tenho de ter todos os dias porque ganho a vida assim. Nunca leio o que escrevi no dia seguinte, porque se o faço fico completamente frustrado.</div>
<div><strong>Nas suas crónicas tem uma certa desconfiança em relação às homenagens e afirma que o inferno dos poetas é acabar nas lapelas dos políticos. </strong></div>
<div>Sabe uma coisa, agora que tive o Prémio Camões tenho homenagens em todo o país. E eu vou porque as pessoas são simpáticas. Se me estendem a mão, estendo sempre a mão. Não gosto de humilhar ninguém. Mais depressa lhe dou uma chapada que a deixo pendurada, compreende? Se desse uma chapada ficava cansado para o resto dos dias. Por isso é que em entrevistas já tenho dito que apertei a mão a muitos canalhas e continuarei a apertar. Ao contrário do Borges, que diz “compreendo o beijo ao leproso, mas não aceito o aperto de mão ao canalha”. De qualquer maneira são pessoas simpáticas. Não posso deixar de fazer isso quando as pessoas me convidam. As explicações que eu dou para tentar não ir por causa das crónicas, da diálise e da falta de tempo, tudo verdade, mas se as pessoas insistem eu vou. O dinheiro do Prémio Camões não o dava a ninguém, mas o prémio partilhava-o com toda a gente, com quem quiser. Entrego já a glória daquela merda.</div>
<div><strong>Gosta do secretário de Estado da Cultura?</strong></div>
<div>Sou amigo dele, mas não acho que ele esteja a fazer um grande trabalho. Não gostei nada da história do Centro Cultural de Belém. Tive uma crónica escrita sobre isso, mas depois não a publiquei.</div>
<div><strong>Mas o Graça Moura é um bom poeta. </strong></div>
<div>Tenho dito isso. Costumo dizer-lhe que só por causa dos poemas dele perdoo- -lhe tudo, até ser a favor da pena de morte. A propósito da sua pergunta inicial sobre os políticos, o Jardim sempre que cá vinha telefonava-me e queria almoçar comigo. Eu fiz a tropa com ele, sabe? Até dormíamos no mesmo beliche. A minha mãe costumava dizer que é na guerra e no jogo que se conhecem os homens…</div>
<div><strong>E tem boa impressão dele?</strong></div>
<div>Até fico ofendido com essa pergunta [risos]. Tenho a pior possível. Vou-lhe contar um episódio que revela o comportamento daquele tipo, é o comportamento dos cobardes. Na guerra estávamos na Acção Psicológica. Éramos dez tipos e eram quase todos do piorio, só havia três tipos que não eram fachos. Nós dez contestámos uma prova física que contava para a classificação e combinámos chegar todos ao mesmo tempo. Então fizemos a corrida em passo de cruzeiro, e 100 metros antes da meta o Jardim arranca a grande velocidade e rompe o acordo, o filho da ****, para ver se ganhava uns pontos extra. O azar dele é que arrancou a 100 metros e nós éramos todos mais ágeis que ele, está a ver a figura dele?, e ultrapassámo-lo todos e ele ficou em último lugar. Mas aquilo foi um acto de traição em relação a uma coisa que tínhamos acordado todos. Mas apesar de já lhe ter chamado Bokassa ele nunca me pôs um processo e sempre que vinha cá telefonava-me para almoçar comigo. Os políticos tratam-me sempre bem. São umas putas velhas.</div>
<div><strong>Mas há alguma explicação do amor dos políticos pela poesia?</strong></div>
<div>Conhece “A Carta a Um Jovem Poeta”? É um diálogo entre Rilke e um jovem poeta que lhe tinha entregue uns poemas. O Rilke simpaticamente disse que tinha gostado de alguns, a que o jovem terá aduzido esperançado: “Acha então que devo continuar a escrever?” Tendo Rilke respondido de pronto: “Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite.” Eu acho até que é um dever cívico. Defendo a tese de que a poesia devia pagar imposto. Mesmo cair sob a alçada do Código Penal. Isso para evitar que, entre outras coisas, eu tenha de ler aqueles 400 livros [aponta para um molho de livros de um concurso de que é jurado]. Todos com “alma” a rimar com “calma” e “água” a combinar com “mágoa” e coisas do género. Poupava-se papel, árvores e muitas coisas. Só se publicavam livros daqueles que estavam dispostos a correr riscos. Voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: left;">18 de fevereiro de 2012</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: left;">Por Nuno Ramos de Almeida</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: center;">in <a href="http://www.ionline.pt/" target="_blank">http://www.ionline.pt/</a></div>
]]></content:encoded>
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		<title>Manuel António Pina (1943)</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 00:30:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citacoes]]></category>
		<category><![CDATA[Manuel António Pina]]></category>

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		<description><![CDATA[O Medo: Ninguém me roubará algumas coisas, / nem acerca de elas saberei transigir; / um pequeno morto morre eternamente / em qualquer sítio de tudo isto.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;"><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/Manuel-António-Pina1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-325" title="Manuel António Pina" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/Manuel-António-Pina1.jpg" alt="" width="124" height="82" /></a></div>
<p style="text-align: left;"><strong> </strong></p>
<p><strong>O Medo</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ninguém me roubará algumas coisas,</p>
<p>nem acerca de elas saberei transigir;</p>
<p>um pequeno morto morre eternamente</p>
<p>em qualquer sítio de tudo isto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É a sua morte que eu vivo eternamente</p>
<p>quem quer que eu seja e ele seja.</p>
<p>As minhas palavras voltam eternamente a essa morte</p>
<p>como, imóvel, ao coração de um fruto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Serei capaz</p>
<p>de não ter medo de nada,</p>
<p>nem de algumas palavras juntas?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Manuel António Pina, in &#8220;Nenhum Sítio&#8221;</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://www.citador.pt/poemas/o-medo-manuel-antonio-pina" target="_blank">http://www.citador.pt/poemas/o-medo-manuel-antonio-pina</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Amor como em casa</strong></p>
<p style="text-align: left;">Regresso devagar ao teu<br />
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que<br />
não é nada comigo.  Distraído percorro<br />
o caminho familiar da saudade,<br />
pequeninas coisas me  prendem,<br />
uma tarde num café, um livro. Devagar<br />
te amo e às vezes  depressa,<br />
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,<br />
regresso devagar  a tua casa, compro um livro, entro no<br />
amor como em casa.</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">de  <em>Ainda Não É O Fim Nem O Princípio Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco  Tarde(1974)</em></p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&amp;p=1779" target="_blank">http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&amp;p=1779</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Os gatos</strong></p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Há um deus único e secreto</p>
<p style="text-align: left;">em cada gato inconcreto</p>
<p style="text-align: left;">governando um mundo efémero</p>
<p style="text-align: left;">onde estamos de passagem</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Um deus que nos hospeda</p>
<p style="text-align: left;">nos seus vastos aposentos</p>
<p style="text-align: left;">de nervos, ausências, pressentimentos,</p>
<p style="text-align: left;">e de longe nos observa</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Somos intrusos, bárbaros amigáveis,</p>
<p style="text-align: left;">e compassivo o deus</p>
<p style="text-align: left;">permite que o sirvamos</p>
<p style="text-align: left;">e a ilusão de que o tocamos</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio &amp; Alvim, 2011)</p>
<p style="text-align: left;">in <a href="http://poemapossivel.blogspot.com/2011/11/os-gatos-de-manuel-antonio-pina.html" target="_blank">http://poemapossivel.blogspot.com/2011/11/os-gatos-de-manuel-antonio-pina.html</a></p>
<p style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</p>
<p style="text-align: left;">A meu favor tenho o teu olhar</p>
<p style="text-align: left;">testemunhando por mim</p>
<p style="text-align: left;">perante juízes terríveis:</p>
<p style="text-align: left;">a morte, os amigos, os inimigos.</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">E aqueles que me assaltam</p>
<p style="text-align: left;">à noite na solidão do quarto</p>
<p style="text-align: left;">refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim</p>
<p style="text-align: left;">quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">Protege-me com ele, com o teu olhar,</p>
<p style="text-align: left;">dos demónios da noite e das aflições do dia,</p>
<p style="text-align: left;">fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,</p>
<p style="text-align: left;">afasta de mim o pecado da infelicidade.</p>
<p style="text-align: left;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;">in Poesia, Saudade da Prosa &#8211; Uma Antologia Pessoal</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://terrear.blogspot.com/" target="_blank">http://terrear.blogspot.com/</a></p>
<p style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</p>
<div style="text-align: left;"><strong> </strong></div>
<div style="text-align: left;"><strong>A Poesia Vai Acabar</strong></div>
<div>A poesia vai acabar, os poetas</div>
<div>vão ser colocados em lugares mais úteis.</div>
<div>Por exemplo, observadores de pássaros</div>
<div>(enquanto os pássaros não</div>
<div>acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao</div>
<div>entrar numa repartição pública.</div>
<div>Um senhor míope atendia devagar</div>
<div>ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum</div>
<div>poeta por este senhor?»    E a pergunta</div>
<div>afligiu-me tanto por dentro e por</div>
<div>fora da cabeça que tive que voltar a ler</div>
<div>toda a poesia desde o princípio do mundo.</div>
<div>Uma pergunta numa cabeça.</div>
<div>— Como uma coroa de espinhos:</div>
<div>estão todos a ver onde o autor quer chegar? —</div>
<div>Manuel António Pina, in &#8220;Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde&#8221;</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://www.citador.pt/poemas/a-poesia-vai-acabar-manuel-antonio-pina" target="_blank">http://www.citador.pt/poemas/a-poesia-vai-acabar-manuel-antonio-pina</a></div>
<div style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</div>
<div style="text-align: left;">A infância vem</div>
<div>pé ante pé</div>
<div>sobe as escadas</div>
<div>e bate à porta</div>
<div>- Quem é?</div>
<div>- É a mãe morta</div>
<div>- São coisas passadas</div>
<div>- Não é ninguém</div>
<div>Tantas vozes fora de nós!</div>
<div>E se somos nós quem está lá fora</div>
<div>e bate à porta? E se nos fomos embora?</div>
<div>E se ficámos sós?</div>
<div>MANUEL ANTÓNIO PINA</div>
<div>Poesia Reunida</div>
<div>Assírio e Alvim</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://conta-meumconto.blogspot.com/2011/09/65-poema-escrito-por-quem.html" target="_blank">http://conta-meumconto.blogspot.com/2011/09/65-poema-escrito-por-quem.html</a></div>
<div style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</div>
<div>&#8220;há palavras que são amigas e outras dão-se muito mal umas com as outras&#8221;</div>
<div style="text-align: center;">in <a href="http://catatu.catalivros.org/fala_estar_le-nos/le_LM06_entr_ma_pina_2_a.pdf">http://catatu.catalivros.org/fala_estar_le-nos/le_LM06_entr_ma_pina_2_a.pdf</a></div>
<div><span style="color: #cd6624; font-family: GillSans; font-size: xx-large;"><span style="color: #cd6624; font-family: GillSans; font-size: xx-large;"><span style="color: #cd6624; font-family: GillSans; font-size: xx-large;"> </span></span></span></div>
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		<title>Raúl Brandão (1867-1930)</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 22:46:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citacoes]]></category>
		<category><![CDATA[Raúl Brandão]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/200px-Raul_Brandao2-e1326408357938.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-11789" title="Raul_Brandao" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/200px-Raul_Brandao2-e1326408357938.jpg" alt="" width="200" height="268" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam.</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://pensador.uol.com.br/autor/raul_brandao/" target="_blank">http://pensador.uol.com.br/autor/raul_brandao/</a></p>
<p style="text-align: center;">&#8212;*&#8212;</p>
<p>A vida é fictícia, as palavras perdem a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. Estamos aqui a matar o tempo.</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/raul-germano-brandao" target="_blank">http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/raul-germano-brandao</a></p>
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		<title>Augusto Moreira, 46 anos</title>
		<link>http://www.correiodoporto.com/sociedade/augusto-moreira-46-anos</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 20:23:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[AUGUSTO Moreira é um empresário de mangas arregaçadas em volta do trabalho. Todos os dias começa a trabalhar às 7h00 e só pára às 23h00. Com 46 anos, o empresário montou há 13 anos uma empresa de limpezas e serviços de jardinagem – a Super Limpeza – que cresceu de um negócio com apenas uma pessoa para uma firma com 12 funcionárias, pois “cresceu de forma saudável...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/augusto.moreira.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-12303" title="augusto.moreira" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/augusto.moreira-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a></p>
<p>Augusto Moreira é um empresário de mangas arregaçadas em volta do trabalho. Todos os dias começa a trabalhar às 7h00 e só pára às 23h00. Com 46 anos, o empresário montou há 13 anos uma empresa de limpezas e serviços de jardinagem – a Super Limpeza – que cresceu de um negócio com apenas uma pessoa para uma firma com 12 funcionárias, pois “cresceu de forma saudável e com estabilidade”. Os pais de Augusto Moreira eram lavradores e “foi lá que comecei a minha luta”, pois só frequentou a 4.ª classe.</p>
<p>Depois foi para uma fábrica das tripas, onde esteve 17 anos e onde também começou com 17 anos de idade. Antes disso, tinha estado durante um ano a trabalhar num café. Quando a fábrica das tripas fechou, Augusto Moreira tinha 33 anos e “foi uma tristeza muito grande”. “Era uma fábrica que empregava muita gente, em que recebíamos direitinho e deu muita pena a toda a gente”, lembra. Com o encerramento da unidade industrial, Augusto Moreira foi para casa e “sem ter outra arte sem ser a agricultura”, começou a pensar o que podia fazer da sua vida.</p>
<p>“Cheguei a pensar: agora o que será de mim?”. Foi nessa altura que surgiu a ideia de montar a empresa de limpezas. “A empresa começou do nada, em que saía de casa para trabalhar uma hora e voltar, porque não havia nada para fazer”, recorda o empresário. Volvidos 13 anos, tudo está diferente. “Agora, a empresa está num momento muito bom e não me safo sem a colaboração de uma dúzia de funcionárias”. Olhando para a forma como se iniciou no negócio e o momento atual, Augusto Moreira reconhece que “nunca imaginei que conseguisse trepar e crescer na firma da forma como aconteceu”. Olhando para o início da empresa, Augusto Moreira admite que não foi fácil, em especial na captação de clientes.</p>
<p>“Fizemos uns cartões e comecei a andar porta a porta a apresentar os meus serviços. Não foi nada fácil, porque na altura não era conhecido e é sempre difícil entrar no mercado quando assim é”, recorda. A sua solução para conseguir angariar clientes e afirmar-se no mercado foi através da qualidade e da palavra dada. “Se cumpria um serviço, ia lá e fazia-o”, afirma. Foi assim que se foi afirmando e ficando conhecido como o responsável de uma empresa de confiança e de qualidade de serviço. Neste momento, a empresa tem uma abrangência bastante grande no seu grau de operações. “Trabalhamos com condomínios, fábricas, confeções, oficinas, escritórios, casas particulares”, refere Augusto Moreira.</p>
<p>Neste último segmento, das casas particulares, “cada vez há mais pessoas a optar por chamar uma empresa de limpezas, pois não tem de dar seguros, Segurança Social e todas as outras condições a uma empregada”, avalia. Por outro lado, a empresa também trabalha na área da jardinagem. “Neste momento, todo o tipo de trabalho que apareça nós aceitamos”, sustenta Augusto Moreira. Embora seja, para o empresário, difícil calcular o número exato de clientes, estes rondam, atualmente, uma centena. E não restringe a sua área de ação ao concelho de Paredes. “Para além do concelho paredense, vamos até Gondomar, Porto, Alfena, Vizela e Penafiel, entre outras localidades”, ou seja, “onde há trabalho nós vamos até lá para o realizar”, refere, com orgulho na capacidade atual da sua empresa.</p>
<p>Como já havia referido, Augusto Moreira empresa 12 funcionários e “neste momento o que é mais fácil, com o desemprego que existe, é contratar, mas também não posso responder a todos os pedidos que tenho”. O empresário conta que tem “muitos pedidos” para que contrate mais pessoas, mas, “para já, é preferível manter o número de funcionários que tenho e conseguir satisfazer os pedidos dos clientes e pagar os salários todos os direitos, nomeadamente seguros e Segurança Social”. Uma grande diferença em relação a quando começou a sua empresa é, para Augusto Moreira, o aumento da concorrência.</p>
<p>“Com o desemprego, houve muita gente a optar por montar empresas de limpeza” e “nem sempre oferecem serviços com a melhor qualidade”. No seu entender, existem pessoas que pensam que “basta comprar uma vassoura e uma esfregona e está uma empresa montada e não é bem assim”.</p>
<p>16 de fevereiro de 2012</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://www.progressodeparedes.com.pt">http://www.progressodeparedes.com.pt</a></p>
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		<title>Pedro Abrunhosa (1960)</title>
		<link>http://www.correiodoporto.com/citacoes/pedro-brunhosa-1960</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 00:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Correio do Porto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citacoes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Brunhosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Escondo-me noutra pele / E passeio sem ningum me ver, / Acelero ao sinal vermelho / E regresso para me perder.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/abrunhosa-pb.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-11765" title="abrunhosa-pb" src="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/abrunhosa-pb.jpg" alt="" width="286" height="300" /></a><a href="http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/abrunhosa.jpg"></a></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Outra Noite Perfeita</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Escondo-me noutra pele</p>
<p>E passeio sem ningum me ver,</p>
<p>Acelero ao sinal vermelho</p>
<p>E regresso para me perder.</p>
<p>Os olhos na estrada,</p>
<p>O corpo no vazio,</p>
<p>Nas mos um volante de fogo,</p>
<p>E a cada non um cigarro,</p>
<p>Um prazer demorado e longo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pe o teu corpo perto de mim,</p>
<p>Deixa que o cho nos engula a sombra,</p>
<p>No pode haver engano num momento assim,</p>
<p>E de repente a tua voz na minha:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Noite perfeita,</p>
<p>Tu s perfeita.</p>
<p>Noite perfeita,</p>
<p>Tu s perfeita.</p>
<p>(Sempre te soube perfeita).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aperto o deserto nos dedos</p>
<p>Como se fosses um corpo de areia,</p>
<p>Ao longe os comboios so loucos,</p>
<p>E louco o meu olhar que vagueia.</p>
<p>Os braos no capt,</p>
<p>As pernas contra o cho,</p>
<p>No h desejo pior que a vontade,</p>
<p>E nos faris escondes o medo</p>
<p>De quereres esta liberdade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pe o teu corpo perto de mim,</p>
<p>Deixa que o cho nos engula a sombra,</p>
<p>No pode haver engano num momento assim,</p>
<p>E de repente a tua voz na minha:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Noite perfeita,</p>
<p>Tu s perfeita.</p>
<p>Noite perfeita,</p>
<p>Tu s perfeita.</p>
<p>(Sempre te soube perfeita).</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/654118/" target="_blank">http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/654118/</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p><strong>Tu Nao Sabes</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tu nao sabes</p>
<p>Quanto tempo vais poder</p>
<p>Dizer: «Este sou eu»,</p>
<p>Gritar que o chão é teu,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Que o céu chama por ti,</p>
<p>Quando à noite te sorri,</p>
<p>Quando as pétalas se abrem</p>
<p>Só por si,</p>
<p>Tu nao sabes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tu nao sabes</p>
<p>Quanto tempo iras pedir</p>
<p>Quando o sangue te fugir,</p>
<p>Quando o punho se fechar</p>
<p>Sobre ti,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Que o sonho nao morreu</p>
<p>Quando o beijo se perdeu,</p>
<p>Que a manha nao acabou</p>
<p>Só por nós,</p>
<p>Tu nao sabes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que palavras vais usar</p>
<p>Quando o sono nao vier,</p>
<p>Quando a noite te disser:</p>
<p>«Vem comigo».</p>
<p>Que loucura iras dizer</p>
<p>Quando a mao que te apertar</p>
<p>Te pedir para ficares</p>
<p>Só mais um dia,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Tu nao sabes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tu nao sabes</p>
<p>Quantos rios se vao deter,</p>
<p>Quantos olhos vao beber</p>
<p>Nas palavras que colaste</p>
<p>Junto ao peito,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Que os teus dedos sao ja meus,</p>
<p>Que se vao fechar nos teus,</p>
<p>Quando os barcos se despedem</p>
<p>Na maré,</p>
<p>Tu nao sabes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que palavras vais usar</p>
<p>Quando o sono nao vier,</p>
<p>Quando a noite te disser:</p>
<p>«Vem comigo».</p>
<p>Que loucura iras dizer</p>
<p>Quando a mao que te apertar</p>
<p>Te pedir para ficares</p>
<p>Só mais um dia,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Tu nao sabes,</p>
<p>Tu nao sabes….</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/654124/" target="_blank">http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/654124/</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8212;*&#8212;</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Barco Para A Afurada</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leva homens, poetas</p>
<p>E gente encantada,</p>
<p>Trocam beijos, piropos</p>
<p>Pedaços de nada.</p>
<p>Na margem espera</p>
<p>A pressa do dia,</p>
<p>Ficam presas em terra</p>
<p>As vidas vazias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Atravessam soldados, amantes,</p>
<p>E velhos distantes</p>
<p>E loucos contentes,</p>
<p>Meninas de lábios cortantes</p>
<p>E olhares provocantes</p>
<p>Seduzem correntes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rasga o silêncio da estrada</p>
<p>Rio madrugada,</p>
<p>D&#8217;ouro, marfim.</p>
<p>O Barco para a Afurada</p>
<p>Cidade cansada</p>
<p>Tão longe de mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rezam padres discretos, selectos</p>
<p>E amores inquietos</p>
<p>Navegam o rio,</p>
<p>Mulheres de futuro cansado</p>
<p>Murmuram um fado,</p>
<p>Enganam o frio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sob a sombra da ponte,</p>
<p>Que é a sombra do mundo,</p>
<p>Cada onda é um canto</p>
<p>De um dia profundo,</p>
<p>E o piloto conduz</p>
<p>Mais do que as gentes que leva,</p>
<p>São os sonhos que estão</p>
<p>Ancorados em terra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Refrão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tocam-se valsas</p>
<p>E roçam as calças</p>
<p>Por entre dois passos de dança,</p>
<p>Despertam amores,</p>
<p>Esquecem-se as dores</p>
<p>Que o desejo ardente não cansa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E solta-se o mar</p>
<p>A reboque dos sinos,</p>
<p>São os homens que o barco</p>
<p>Faz de novo meninos,</p>
<p>E acordam poemas</p>
<p>Libertos na voz,</p>
<p>Descobrem apenas</p>
<p>Que não estão sós.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Refrão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8230;Barco que trago no peito,</p>
<p>Meu sonho desfeito,</p>
<p>Espera por mim.</p>
<p style="text-align: center;">in <a href="http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/593/" target="_blank">http://letras.terra.com.br/pedro-abrunhosa/593/</a></p>
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