Manoel de Oliveira: primeiro filme foi há 80 anos
Primeiro filme de Manoel de Oliveira foi há 80 anos
O mais veterano realizador do mundo, Manoel de Oliveira, estreou há 80 anos, em 19 de Setembro 1931, o seu primeiro filme, ‘Douro, Faina Fluvial’, em Lisboa, e foi um início de carreira saudado com uma pateada.
A plateia escolhida para estrear o filme de 18 minutos foi a do V Congresso Internacional de Crítica, em Lisboa. Desde 1929 que Oliveira vinha a realizar o filme, que retratava a vida da zona ribeirinha da cidade, mas foi interceptado pelo realizador Lopes Ribeiro, que convenceu o portuense de 21 anos a acabar o filme a tempo daquele evento. E a maior parte da plateia pateou, incomodada por o filme mostrar a estrangeiros gente descalça e miserável. Mas os estrangeiros adoraram. O famoso dramaturgo Luigi Pirandello e um crítico de cinema terão perguntado se em Portugal se costumava aplaudir os bons filmes com os pés…
«Era brilhante a trepidante montagem e a fotografia do documentário influenciada pelos modernistas soviéticos e alemães, e inspirada assumidamente por Oliveira no filme ‘Berlim, Sinfonia de uma Cidade’ de Walter Ruttmann. Eles não queriam simplesmente transportar para o cinema as imagens da cidade, acreditavam que o cinema era a arte que melhor expressava o frenesim da vida urbana, mais do que o teatro a musica ou literatura», afirma Sérgio Costa Andrade, jornalista do Público e autor do livro ‘O Porto na História do Cinema’. O filme seria exibido numa versão muda, já que só mais tarde Luís de Freitas Branco viria a compor a banda sonora.
Mas foi uma obra de um amador, montada em condições artesanais. «Em 1929, a Invicta Filme estava falida. O estúdio era alugado, por exemplo pelo Repórter X que aí filmou, mas os anos de ouro tinham sido entre 1918 e o meio da década de 20. Por isso não há produção» afirma Sérgio Costa Andrade. Manoel de Oliveira convence o seu amigo António Mendes, bancário e fotógrafo amador, a auxiliá-lo na recolha de imagens da vida do Douro. Filmam com uma câmara Kinamo que lhe tinha sido oferecida pelo pai e, segundo lembra Oliveira no seu filme ‘Porto da Minha Infância’, a montagem da película foi feita no bilhar de sua casa.
«Ele ocupava-se das empresas do pai, era atleta, só entraria em corridas de automóveis nos anos trinta, mas já tinha brevet de aviador e tinha aquele interesse pelo cinema porque era cinéfilo», recorda Sérgio Costa Andrade. O Águia D’ Ouro, o Olympia e o Passos Manuel serviam para matar a fome de fitas.
A carreira de Oliveira só seria retomada dez anos depois, em 1942, com o clássico ‘Aniki Bobó’, o que leva Sérgio Costa Andrade a afirmar que «ele não tinha intenção imediata de seguir a carreira de realizador, embora prosseguisse escrevendo argumentos». E seria com o realizador Lopes Ribeiro, que o impulsionara a exibir o primeiro filme, agora no papel de produtor, que Oliveira realizaria aquele filme que voltaria a ter o Douro como um seus cenários.
Lusa/SOL
18 de Setembro de 2011
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Manoel de Oliveira convidado a realizar sobre a cidade de Guimarães
Manoel de Oliveira, Rui Simões, Pedro Costa, João Botelho, João Canijo e Margarida Gil são alguns dos realizadores convidados pela Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura para produzir filmes sobre a memória nacional e a riqueza histórica e cultural da cidade de Guimarães, num projecto que tem o orçamento global de 2,3 milhões de euros e que, para além dos realizadores lusos, contará ainda com nomes internacionais como Jean-Luc Godard, Aki Kaurismaki e Victor Erice.
As filmagens arrancam já no próximo dia 8 de Agosto, com um trabalho de Rui Simões: o cineasta vai filmar uma curta-metragem sobre as festas tradicionais ‘Gualterianas’, que será exibido durante o próximo ano e que dará conta de uma tradição que existe desde 1906.
Além da encomenda de novas produções de cinema, a Capital Europeia da Cultura irá ainda criar uma Plataforma de Produção Audivisual, que deverá transformar Guimarães num novo centro de criação cinematográfica.
6 de Agosto de 2011
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Raúl Brandão inspira Manoel de Oliveira
Em pouco mais de um mês, Manoel de Oliveira vai filmar, em Paris, o drama teatral “O Gebo e a Sombra”, escrito por Raúl Brandão em 1923.
“A felicidade na vida é não acontecer nada”, deixa escapar Gebo numa conversa íntima com a nora, Sofia. “É o hábito”, completa a rapariga. “Talvez seja o hábito”- reflecte Gebo – “É a gente fazer sempre o mesmo trabalho e dizer sempre as mesmas palavras”. “Como a chuva. E não cismar” – sublinha Sofia.
As palavras dos personagens de Raúl Brandão parecem desfiar o tempo. Desfiar os dias, como um novelo que se vai enchendo. Desfiar a vida no tempo necessário para compreendê-la, ou aceitá-la, como vem e como parte.
Há uma dimensão que parece unir dramaturgo e cineasta, ambos nascidos no Porto, com um intervalo de 40 anos.
Oliveira decidiu adaptar a história de Gebo, o cobrador da Companhia Auxiliar, de Doroteia, a sua mulher, do filho João e da nora Sofia ao cinema. As filmagens, feitas integralmente em estúdio, começam nos finais de Agosto, em Paris, e vão prolongar-se durante o mês de Setembro.
Michel Piccoli, Leonor Silveira e o neto do cineasta, Ricardo Trepa, já são certos no elenco desta história passada nos finais do século XIX.
Há muito que Manoel de Oliveira tinha o desejo de adaptar este texto de Brandão ao cinema, uma peça que retrata a pobreza e os dramas da vida de pessoas simples, que podem facilmente projectar-se na vida contemporânea.
O projecto já tem financiamento certo de 1,6 milhões de euros e vai ser interpretado em francês. A produção é da companhia O Som e a Fúria que colabora pela primeira vez com o realizador.
O Som e a Fúria é a terceira empresa a produzir as longas-metragens de Oliveira desde que o cineasta rompeu, em 2004 (“O Quinto Império”), uma duradoura relação com o produtor Paulo Branco.
Daí até agora, Oliveira rodou duas obras com a Filbox (“Espelho Mágico” e “Belle Toujours”) e três com a Filmes do Tejo (“Cristovão Colombo - Enigma”, “Singularidades de uma Rapariga Loura” e “Estranho Caso de Angélica”)
“O Gebo e a Sombra” vai ser rodado em cerca de um mês. Luis Urbano, do Som e a Fúria confirmou ao CINEMAX que prevê estreá-lo no próximo ano, após a apresentação em Berlim ou ou Cannes, os dois maiores festivais que decorrem no primeiro semestre.
por Eduarda Maio 27 julho ’11
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Aos 102 anos, o cineasta português não para de produzir. Está envolvido na produção de três filmes, um deles reunindo três contos de Machado de Assis
São 52 filmes em 80 anos, o primeiro rodado aos 23 anos, mais 14 até começar a ter sucesso e, oito filmes depois, aos 82 anos, Manoel de Oliveira dirigia um filme por ano. Ele não explica o fenômeno nem está preocupado com o assombro do mundo em torno de sua obra agora, aos 102 anos, com três filmes já articulados, um deles reunindo três contos de Machado de Assis.
Como você consegue produzir tanto aos 102 anos?
Manoel de Oliveira- Tenho a fertilidade das árvores que sabem que vão morrer. Não estou cansado, só me canso quando não trabalho.
Você não se preocupa com o público, moldado pela televisão e Hollywood?
Oliveira – Não gosto da palavra público. As cadeiras do teatro são públicas, as pessoas, não.
Formam a massa humana
Oliveira – Mas a é massa anónima e cada um tem a sua personalidade
Então você não pensa no que as pessoas querem ver?
Oliveira – Penso na vida, por que estamos aqui, nem em técnica, nem em nada
Qual foi a sua escola?
Oliveira – Os primórdios do cinema. Não fiz escola. A única ciência que tenho está na memória
Kurosawa fez seu último filme Madadayo em 1993 como despedida, um professor que se despede dos alunos. Você pensa que o último filme que fez pode ser uma despedida?
Oliveira – Nunca penso no que fiz, só no que vou fazer, agora mesmo estou pensando no próximo filme, a vida só acontece quando você não pensa nela
Você nunca pensa na morte?
Oliveira – Penso que a minha longevidade é um capricho da natureza, pode ser para o bem ou para o mal, ainda não sei bem.
30 de Junho de 2011
Por Norma Couri, do Porto
in http://revistaepoca.globo.com/
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Consagrado tardiamente em Portugal, onde nunca teve os favores do público, Oliveira também chegou tarde ao estrangeiro, onde é, no entanto, o mais considerado e premiado cineasta português.
Ainda pouca gente deve ter reparado nisso, mas os filmes de Manoel de Oliveira são um dos mais prestigiados produtos de exportação nacional, e o próprio Oliveira uma das mais importantes marcas portuguesas na área da cultura, reconhecido, elogiado e premiado no estrangeiro, ao nível de uma Paula Rego, de uma Maria João Pires ou de um José Saramago.
A associação de Oliveira a Agustina Bessa-Luís permitiu também a esta ganhar mais visibilidade internacional, e o facto de o realizador trabalhar regularmente com actores como Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Irene Papas ou John Malkovich, fez com que os seus filmes chegassem a um público mais alargado fora de portas. Em especial na Europa e muito particularmente em países como França, Itália ou Espanha, já que nos EUA, por exemplo, o autor de Francisca é ainda um nome de circulação cinéfila limitada, embora admirado por vários dos críticos mais importantes e por estudiosos de cinema a nível universitário.
O cineasta mais velho do mundo ainda em actividade, que diz que “a idade é um capricho e o cinema uma paixão, algo interior”, não é profeta no seu país. Admirado e celebrado no meio artístico, cultural e intelectual português, e respeitado e considerado pelas instâncias do poder (mesmo que muitos dos seus representantes nunca tenham visto um filme dele), continua a ser ignorado, impopular ou execrado pelo público.
No estrangeiro, onde além de o maior cineasta português, é também considerado o maior cineasta do mundo, ou um dos mais “singulares”, “excêntricos” ou “distintos”, por não poucos críticos, programadores, directores de festivais, cinematecas, ensaístas e exegetas da Sétima Arte, Manoel de Oliveira é igualmente o realizador nacional mais premiado e com mais ciclos e retrospectivas, embora o seu reconhecimento tenha sido tardio.
Tal como aconteceu em Portugal, aliás, onde só se consagrou quando outros realizadores da sua geração já tinham atingido a idade da reforma ou morrido. Quando Amor de Perdição surgiu, em 1978, três anos após o 25 de Abril e a absoluto contrapelo do cinema “popular e de massas”, pesadamente político e bandeado para a esquerda radical que então se fazia e queria impor, já Oliveira tinha 70 anos. Hoje tem 102 e ainda continua a filmar. Goste-se ou não da sua obra e das suas idiossincrasias cinematográficas, aplaudam-se alguns dos filmes e rejeitem-se outros, ele é um fenómeno único no mundo.
Entre várias outras recompensas internacionais, Manoel de Oliveira já ganhou uma Palma de Ouro de Carreira e um Prémio do Júri no Festival de Cannes; um Leão de Ouro de Carreira, um Leão Especial pelo Conjunto da Obra e um Grande Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza; um Prémio Especial pela Obra e uma Câmara da Berlinale para a Carreira no Festival de Berlim; um Prémio Luchino Visconti nos David de Donatello; um Prémio Honorário nos Prémios do Cinema Europeu; um Leopardo de Honra no Festival de Locarno; um Grande Prémio Especial das Américas no Festival de Montréal, e os Prémios de Carreira e de Melhor Contribuição Artística no Festival de Tóquio.
Numa entrevista que deu à Visão quando completou um século de vida, Manoel de Oliveira comentou: “Eu acho que não há país no mundo mais internacional, mais universal, do que Portugal. Portugal está aqui, mas está também em qualquer lado.” E Portugal também está sempre nos filmes de Manoel de Oliveira.
25 de Junho de 2011
Por EURICO DE BARROS
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António Preto, doutorando em História e Semiologia do Texto e da Imagem na Universidade de Paris III, apresenta em Manoel de Oliveira, O Cinema Inventado à Letra, um rigoroso e muito bem fundamentado percurso analítico da estética cinematográfica de Manoel de Oliveira. O olhar crítico e profundo sobre as imagens oliveirianas, o percurso, tal como lhe chama o autor, estrutura-se em seis capítulos: A Construção da Imagem, O Olhar, A Síntese, A Palavra, O Teatro e O Cinema. Ao rigor do olhar crítico alia-se a escolha dos múltiplos fotogramas indispensáveis para a abordagem estética escolhida.
Na introdução deste estudo, intitulada Viagem ao Princípio do Cinema, António Preto estabelece uma abordagem lúcida e exaustiva sobre a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira no percurso entre curtas e longas-metragens, entre documentário e ficção e, ao caracterizar a estética de Oliveira, enuncia as escolhas analíticas que desenvolve neste ensaio: “A ficção é um espelho da verdade”, refere o autor. Talvez seja por isso que Oliveira, insiste com tanta frequência na documentação da ficção e na ficção do documentário, reunindo, nesse gesto, as principais linhas de pesquisa em que se tem vindo a desenvolver a sua prática do cinema: a injunção do passado no presente, do teatro no cinema e da verdade no fingimento”. Define, nesta introdução, o percurso essencial do seu olhar face à obra oliveiriana – “Moderna e paradoxal, construída numa radicalização da linguagem cinematográfica, a meio caminho entre a procura da especificidade do cinema e a afirmação da sua irredutível impureza, no questionamento das demarcações entre documentário e ficção ou entre cinema, pintura, teatro e literatura, a obra de Manoel de Oliveira resiste a classificações categóricas”.
A Construção da Imagem estrutura uma reflexão sobre a modernidade. Analisa o percurso da montagem, do enquadramento, da sobreposição de planos e os olhares da modernidade na ausência de fronteiras entre documentário e ficção em Douro Faina Fluvial; a estética da montagem, a oposição entre a irregularidade da paisagem tradicional e a angulosidade rectilínea da paisagem moderna em Hulha Branca e Portugal já faz automóveis e o elogio da modernidade e a circularidade do processo industrial em Famalicão e O Pão.
Identifica o olhar do cineasta perante a arquitectura em O Pintor e a Cidade e O Improvável não é Impossível. Projecta a relação entre cinema e pintura em Nice… à propos de Jean Vigo e a recomposição das imagens em O Pintor e a Cidade, num percurso pela oscilação dos planos na construção da imagem. Apresenta uma reflexão rigorosa sobre a imersão de Manoel de Oliveira na literatura. Define a profunda relação entre o cinema, a literatura, a pintura e o percurso de teatralização na análise dos “tableaux vivants” em Francisca, Amor de Perdição e Le Soulier de Satin. Define a essência estética de fontes documentais pictóricas e escritas e analisa a significação dos objectos pictóricos no espaço do enquadramento cinematográfico, identificando o valor das projecções na composição do plano e na reconfiguração da lógica espacial e narrativa em Non ou a Vã Glória de Mandar e Espelho Mágico.
Apresentando um extremo rigor na escolha e na análise dos fotogramas, percorre a estética escolhida na projecção (espelhos, sombras e água) como imagem da auto-reflexibilidade oliveiriana, essencial no cinema – “o facto do espelho não ter frente nem avesso: o objecto e a imagem coincidem com o espelho no mesmo plano de formulação do cinema” – em Porto da Minha Infância, Amor de Perdição, O Passado e o Presente, Vale Abraão, Espelho Mágico e Um Filme Falado. As potencialidades expressivas das sombras são protagonistas de um jogo de simulação e de denúncia da instância narrativa em Aniki-Bóbó, Espelho Mágico, Acto da Primavera, Os Canibais e Palavra e Utopia.
O percurso de neutralização de uma parte da imagem como processo de estruturação do plano, de focalização narrativa e da exactidão do discurso é analisado em Le Soulier de Satin, O Pão, O Convento, Aniki-Bóbó, Inquietude e Passado e Presente. Nesse âmbito, António Preto sublinha “a eliminação de tudo o que, na imagem (ou no agenciamento das imagens), pode constituir ruído é, pois, a condição necessária à exactidão do discurso”. É nessa exactidão do discurso que a composição da imagem líquida como elemento estruturante entre pintura e cinema é analisada em O Pão, O Pintor e a Cidade, Douro Faina Fluvial e Aniki-Bóbó.
O Olhar estrutura uma análise acerca dos olhares das personagens dirigidas ao olhar do espectador porque o filme é projectado numa sala diante do espectador. São analisadas a relação entre os olhares dos actores e dos olhares da câmara e a oscilação entre pontos de vista objectivos e subjectivos e olhares indiscretos da câmara em Mon Cas e O Passado e o Presente. Os exemplos apresentados e o rigor da análise projectam uma reflexão sobre as potencialidades estéticas do olhar-câmara e a estruturação do olhar em relação ao teatro e ao cinema na relação campo/contra-campo. António Preto especifica o olhar como espelho e como testemunha do fora de campo em Party, O Passado e o Presente, Francisca, Espelho Mágico, O Princípio da Incerteza, Vale Abraão e Um Filme Falado.
As relações visuais entre personagens e objectos, a sua significação e essa relação com os olhos do espectador percorrem o olhar analítico sobre Douro Faina Fluvial, A Caça, Inquietude e A Divina Comédia.
O Dia do Desespero é pretexto para uma escolha estética – “Se o cinema é, nas palavras de Oliveira ‘um olhar indiscreto sobre as coisas, sobre a vida dos outros’, é preciso não esquecer (como o próprio cineasta não esquece e permanentemente sublinha) que essa vida só existe, no cinema, para se dar a ver, à câmara e ao espectador”. O processo dos pontos de vista e o pacto fílmico com o espectador na relação do olhar para a câmara é a alavanca de uma análise da não-ilusão do cinema de Manoel de Oliveira em O Pão, Espelho Mágico, O Quinto Império e Non ou a Vã Glória de Mandar.
Na completa interacção entre as obras, fundamentando exemplos e estabelecendo relações entre elas, analisa a implicação directa do espectador no discurso fílmico em Um filme falado, A Caixa e Cristóvão Colombo, o Enigma. Sublinha o carácter metafórico de uma câmara simbólica na significação do olhar para o espectador, especifica os enquadramentos do olhar do actor no espectador e percorre a articulação do olhar da câmara no olhar dos actores em Benilde ou a Virgem Mãe.
A análise detalhada da frontalidade e do plano fixo, com especial relevância para os percursos metafóricos da objectividade e da subjectividade na escolha de planos e enquadramentos, espelha-se em O Pintor e a Cidade, O Princípio da Incerteza e Le Soulier de Satin – “Apanhado neste fogo cruzado onde tão depressa um olhar é denunciador como denunciado, cumpre ao espectador unificar todos os pontos de vista e, gozando do seu livre arbítrio, produzir um julgamento”.
Síntese projecta a vocação sintética da imagem através da análise detalhada dos fotogramas escolhidos de O Passado e o Presente, A Caça e O Dia do Desespero. O processo sintético do plano e o percurso poético na construção do tempo são a alavanca de uma escolha que projecta exemplos de uma “sexualização da imagem” em Espelho Mágico, Vale Abraão, Inquietude, Os Canibais, Amor de Perdição e Douro Faina Fluvial.
A utilização oliveiriana de planos fixos e sequências que exprimem opiniões políticas e estruturam análises cinematográficas de situações ideológicas são alvo de uma reflexão pertinente em Cristóvão Colombo, O Enigma, A Caixa e Je Rentre à la Maison.
Numa análise profunda e detalhada dos fotogramas escolhidos, António Preto percorre a relação entre a plasticidade da imagem e a arquitectura do discurso terminando o capítulo com a confluência dos factores estéticos, simbólicos e discursivos na análise da metamorfose de Ema em Vale Abraão.
A Palavra apresenta a restituição, no cinema, da própria plasticidade do texto e sublinha a filmagem da objectividade material do texto. A palavra, como dimensão fundamental do cinema de Oliveira e os exemplos de corporização do texto no filme são analisados em Inquietude, O Dia do Desespero, Amor de Perdição e Palavra e Utopia. A questão epistolar como princípio narrativo é documentada com os exemplos das cartas e dos documentos de Amor de Perdição. A natureza cinematográfica da carta e a presença de cartas e livros “matéria e signo de ficção” são analisadas em Amor de Perdição, Francisca, Inquietude, Acto da Primavera, La Lettre e Palavra e Utopia. O filme literário e o cinema como importante ferramenta de análise de texto são projectados analiticamente em Vale Abraão, A Divina Comédia e O Dia do Desespero.
O Teatro estabelece o percurso estético da encenação do texto e do cinema e apresenta a relação de Manoel de Oliveira com o teatro em Acto da Primavera, A Divina Comédia e Mon Cas. O percurso do Corifeu e a voz off, a problematização de questões teatrais a partir de um ponto de vista cinematográfico e a análise profunda e consciente das questões palimpsésticas entre as duas artes projectam a ligação entre os espaços escolhidos do cineasta e o palco em Le Soulier de Satin, Os Canibais, Lisboa Cultural e O Passado e o Presente.
A transição entre o espaço da realidade e o espaço da representação e a representação do espectador definem uma escolha estética – “E é porque o litígio de ideias não pode sustentar-se na ilusão que Oliveira começa por defender que teatro e cinema são uma e a mesma coisa. O que esta afirmação traduz é uma oposição do autor a um cinema demasiado técnico, baseado em efeitos especiais e de montagem: para Manoel de Oliveira, é cinema o que se põe à frente da câmara, seja uma paisagem, uma natureza morta, ou um texto feito teatro.” – em Acto da Primavera, Viagem ao Princípio do Mundo, Aniki-Bóbó, Party, Porto da Minha Infância, O Princípio da Incerteza e Je Rentre à la Maison.
Em O Cinema, projectando a escolha estética de Manoel de Oliveira – o cinema como síntese de todas as artes – António Preto analisa o carácter auto-reflexivo do cinema definindo-o como primeiro e último objecto do olhar em Le Soulier de Satin e Mon Cas. Projecta uma imensa reflexão sobre a natureza da imagem cinematográfica numa profunda análise daquilo que considera a encenação do documentário e a vertente documental da ficção em Je Rentre à la Maison, Acto da Primavera e Viagem ao Princípio do Mundo. Apresenta a inclusão no filme da figura do realizador, da câmara e da equipa de cinema e define uma metáfora do cinema na dicotomia ideológica da curta-metragem Rencontre Unique.
Porto da Minha Infância e Belle Toujours são pretexto para a análise da elementaridade do fotograma e da materialidade da película no discurso fílmico. Lisboa Cultural, Mon Cas e Le Soulier de Satin são pretexto para a análise da ilustração das teorias da montagem e da questão da filmagem e da projecção, sempre uma perspectiva comparatista onde referentes fílmicos continuamente se completam e se recriam. O capítulo termina com a análise da recriação das sombras em Douro Faina Fluvial, Porto da Minha Infância e Acto da Primavera e com a definição das janelas como metáfora cinematográfica em Aniki-Bóbó e O Princípio da Incerteza.
António Preto conclui este percurso com uma antologia de textos, Ensaios, anteriormente publicados, depoimentos e análises do cineasta e dos seus filmes. Em Manoel de Oliveira, Agustina Bessa Luís apresenta o seu percurso pessoal na relação com o cineasta sublinhando “Não faz continuamente para chegar à perfeição, mas porque ama o imprevisto, o desconhecido de cada trabalho. Ele tem ciúme do que lhe escapa em cada filme que faz, e por isso persegue de uma forma narcísica o que lhe foge”. Em Antecipar a Eternidade, Regina Guimarães e Saguenail, estabelecem uma análise exaustiva da obra do autor. Em Palavra e Cinema, Manoel de Oliveira apresenta um olhar acutilante numa reflexão profunda acerca da essência do cinema – “Mas há abusos excessivos e injustificados e frequentes de movimentos da câmara em filmes e disto nunca vi que se falasse, quando em boa verdade tais movimentos de câmara não são justificáveis porque, na maior parte, não respeitam a autenticidade das formas do cinema, antes exibem acrobacias de uma câmara acrobata que as técnicas mais sofisticadas sofisticam, fazem do cinema coisa de circo.” Em O Céu é Histórico, Serge Daney e Raymond Bellour entrevistam Manoel de Oliveira numa conversa sobre cinema, tempo e História. O cineasta termina a entrevista dizendo – “Peço desculpa pela fraqueza das minhas respostas. Prefiro realizar filmes.”
António Preto não tem direito a pedir desculpa. O seu percurso analítico através da obra de Manoel de Oliveira carrega uma culpa incontornável: a do rigor e da honestidade intelectual. Depois de ler Manoel de Oliveira o Cinema Inventado à Letra, admiramos ainda mais a obra do Mestre. E António Preto é o culpado disso. A Manoel de Oliveira exigimos mais filmes. A António Preto exigimos mais olhares como este.
Anabela Branco de Oliveira
Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)
Portugal


Agora que Oliveira anda à roda de Machado de Assis, mais propriamente do conto do escritor brasileiro , “Missa do Galo”, é melhor estar “preparado”. Eu não fazia ideia desse conto. Mas o “Galo” lembrou-me logo aquele que aparece na cena final de “Belle Toujours” e que tem significados que muitos já têm destacado. Mas para isso, não há nada como ver a “sequela” de “Belle de Jour” de Bunuel.
À espera do Filme de Oliveira, deixo a síntese do conto, que “tirei ” da net (já não sei de onde, sorry):
«O conto Missa do Galo, narrado em 1º pessoa pelo jovem Nogueira, um rapaz de dezessete anos que veio ao Rio de Janeiro para estudar. Hospeda-se na casa do escrivão Meneses, às vezes chamado de Chiquinho, viúvo de uma prima sua, que agora é casado com Conceição, uma mulher de temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Meneses mantém um relacionamento extraconjugal e, uma vez por semana, sob o pretexto de ir ao teatro, vai se encontrar com sua amante. Conceição tem conhecimento deste relacionamento e mostra-se submissa.
O conto se desenvolve na véspera de Natal, numa dessas noites em que o escrivão sai de casa e Nogueira fica na sala de estar aguardando seus colegas para irem à Missa do Galo. Enquanto espera e os outros dormem, Conceição vai ao seu encontro na sala da casa, onde conversam assuntos variados e não vêem o tempo passar. Até que um de seus colegas bate à porta chamando-o para a Missa do Galo.
No dia seguinte, Conceição age como se nada tivesse acontecido, sem que sequer se lembrasse da conversa que teve com Nogueira na noite anterior.
No Ano Novo, Nogueira volta à sua cidade e nunca mais encontra Conceição. Quando volta ao Rio de Janeiro, Nogueira descobre que Meneses faleceu e fica sabendo que Conceição se casou com o juramentado do marido.»
28 de Janeiro de 2011
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Manoel de Oliveira filmará Machado de Assis
A trajetória de Manoel de Oliveira no cinema se inicia quando, aos vinte anos de idade, ingressou na escola de atores de Rino Lupo, cineasta italiano radicado em Porto, sua terra natal. Em 1933, participou de “A Canção de Lisboa” (1933), de Cottinelli Telmo, o segundo filme sonorizado de Portugal. Em 1942, lançou-se no cinema de ficção com “Aniki-Bobó”. Antes desta data, fizera documentários, muitos dos quais obtiveram repercussão internacional. Por um espaço de tempo, por conta dos fracassos comerciais dos seus filmes, decidiu afastar-se da sétima arte e dedicar-se aos negócios da família. Porém, em 1956, voltou com “O Pintor e a Cidade”. Em 1963, realizou “O Acto da Primavera”, misto de documentário e ficção que constitui um dos pontos altos de sua carreira e do cinema mundial. Sua fase mais fértil, quantitativamente falando, inicia-se na década de 1990, quando passa a realizar praticamente um filme por ano, alguns deles obras-primas da sétima arte.
Seu estilo é marcado por uma preocupação com todos os estratos sígnicos do discurso fílmico. Como observou o crítico Ruy Gardnier, o cinema, para Manoel de Oliveira, é uma “arte inclusiva (catalisadora de todas as artes) e perspectiva (faz refletir sobre todas elas e sobre si própria)”. Como na maior parte do bom cinema europeu, suas produções apresentam diálogos de elevado nível sem, no entanto, parecerem demasiado didáticos – não por acaso, sua roteirista predileta é Agustina Bessa-Luis, uma das grandes prosadoras da literatura de língua portuguesa do século XX. Seus planos são lentos e estudados, de grande exatidão pictórica e forte carga simbólica; sob a câmera estática, a gestualização teatral dos atores convida-nos a uma reflexão sobre a semiótica dos gestos. Estes pontos – que fazem o deleite do espectador intelectualmente mais exigente e versado em artes plásticas – acabam algumas vezes causando estranhamento àqueles que estão mais acostumados ao cinema americano e sua montagem frenética. Assim, é preciso um esforço reflexivo para entender o sentido ritual e simbólico das imagens captadas e recriadas no cinema de Manoel de Oliveira.
Sob o influxo de grandes artistas portugueses, em especial de Camões e Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira faz convergirem mito e história em seus trabalhos. De sólida formação humanista e avesso à moda multicultural, Oliveira aposta no cinema como fator de integração cultural (daí o plurilinguismo comum em seus filmes, seus atores de várias nacionalidades e suas referências a clássicos universais de variados países) e enunciador de discursos universais.
Se na pós-modernidade o bombardeio de imagens veiculadas na mídia nos incita cotidianamente a uma recepção semi-distraída, de apreciação sinestésica e irrefletida, o cinema de Manoel de Oliveira deriva grande parte de seu poder transformador de um desafio que nos lança: reatar uma relação reflexiva com a imagem, contemplando seu apuro plástico e buscando compreender os novos efeitos de sentido que se produzem quando do seu contato com a palavra e com a música.
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| Manoel de Oliveira quer filmar Machado de Assis Manoel de Oliveira dirigirá Fernanda Montenegro … em ‘Igreja do Diabo’, que será rodado no Rio de Janeiro. |
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Duas lendas do cinema mundial trabalharão juntas em um novo projeto. De acordo com o colunista Hermés Galvão, do jornal Diário de S.Paulo, Fernanda Montenegro será a protagonista de Igreja do Diabo, filme que terá por base contos de Machado de Assis. Fernanda recebeu o convite do cineasta português Manoel de Oliveira, de 102 anos e o mais velho em atividade no mundo, sendo que ela aceitou prontamente. Igreja do Diabo terá locações no Rio de Janeiro e o diretor chegará ao Brasil no segundo semestre. Por Weliton Vicente, em 04/02/2011 in http://www.cineplayers.com/
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10/05/2011
O cineasta português deve vir à cidade para filmar longa baseado na obra do escritor
Arquivo
Decalcada de contos seminais para a literatura brasileira como “Missa do Galo”, a bruxaria machadiana tem assombrado o português Manoel de Oliveira a cada discussão sobre o roteiro de “A Igreja do Diabo”, novo projeto de longa-metragem do mais velho realizador em atividade no cinema mundial. Aos 102 anos, o diretor de “Vale Abraão” (1993), na ativa desde os anos 1930, vai juntar três contos de Machado de Assis (1939-1908) num filme que idealiza sonhando com Fernanda Montenegro para o papel principal. Com dois filmes para estrear até dezembro no país, “Singularidades de uma rapariga loira”, agendado para estrear no fim do mês, e “O estranho caso de Angélica”, o centenário cineasta vai rodar o projeto sobre Machado no Brasil, em estúdio. E tudo indica que o Rio de Janeiro será a sede da produção.
Três contos como se fossem um
- Apenas interpretei o que Machado de Assis escreveu, ao meu sentir, e unifiquei três contos como se fossem um só, num projeto de filme que engloba “Missa do Galo”, “Ideias de canário” e “A Igreja do Diabo”. O título foi-me sugerido pelo produtor Luís Urbano, por ser o mais inquietante dos três. Os contos estarão lá por inteiro, mas como se fossem um só, sem de modo algum trair Machado de Assis – diz o diretor, que sempre escala seu neto, Ricardo Trêpa, em seus elencos. – Toda a obra artística literária tem a sua componente cinematográfica que está no sentir do realizador. A obra literária é em si o modelo. A obra cinematográfica é o retrato desse mesmo modelo. Não se confunda nunca o modelo com o retrato. Trata-se, pois, de retratar, ou, melhor, de interpretar. “A Igreja do Diabo” mostra um lado do mundo meio escondido.
Oliveira espera fundir no longa, a partir de uma só linha narrativa, o olhar de Machado sobre três temas: uma visita do demônio à Terra, um relato de adultério e os delírios de um ornitólogo. Depois de ter trabalhado com Lima Duarte (“Palavra e utopia”) e com Ana Maria Magalhães (“O estranho caso de Angélica”), Oliveira pode expandir sua conexão com o cinema brasileiro ao filmar a diva Fernanda. Em 2009, a atriz foi convidada para trabalhar com ele, mas não pôde aceitar devido a compromissos com o teatro. O cineasta, porém, reforçou seu interesse em dirigi-la assim que ela pudesse.
- Fernanda Montenegro é uma excelente atriz. Gostaria imenso de fazer um filme no qual ela tivesse um papel à altura do seu talento – diz Oliveira, tratado pela crítica como um dos maiores cineastas contemporâneos, capaz de se reinventar mesmo frente às tecnologias digitais.
Antes de desbravar as veredas de Machado, o cineasta, que vem mantendo a média de um filme por ano, roda um outro longa, em seu país.
- Mestre Manoel de Oliveira está neste momento trabalhando comigo no seu próximo longa-metragem, que se chama “O gebo e a sombra” e será uma coprodução com a Mact Productions, empresa francesa que participou de “Central do Brasil”, de Walter Salles. Logo que os financiamentos desse longa estejam assegurados e que a programação da rodagem esteja definida, iniciarei o processo de financiamento de “Igreja do Diabo” no Brasil e em Portugal – explica Luís Urbano, da produtora portuguesa O Som e a Fúria, responsável pelo cultuado “Aquele querido mês de agosto” (2008).
‘A literatura brasileira é especial’
Filmar Machado representa para Manoel de Oliveira a chance de encontrar na língua brasileira pistas para entender a decadência moral contemporânea.
- A literatura brasileira é muito especial e dá uma nova visão das coisas e do mundo manifestamente degradado que atravessamos hoje – diz ele. – Machado de Assis é um dos primeiros grandes autores com uma sensibilidade muito marcante e com um modo de escrever que o distingue e o particulariza na língua portuguesa, tal como se destacou, no terreno da expressão cinematográfica, o vosso magnífico Glauber Rocha. Os autores brasileiros têm cada um o seu particular toque, quer na prosa, quer na poesia. (Rodrigo Fonseca).










































































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