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Inês Lourenço, Coisas que Nunca

22 Setembro 2010 58 visualizações 1 comentário

 

Do ponto de vista do autor, o mais importante da poesia será a sua capacidade para ser lugar de construção da experiência: não um lugar de expressão de quaisquer vivências íntimas que lhe fossem prévias, mas um lugar de transposição da experiência imediata para alguma coisa organizada em linguagem, um lugar de transfiguração dessa experiência. Esta organização da experiência em linguagem e representação constitui o fundamento daquilo a que chamamos, em sentido lato, cultura. Por isto, do ponto de vista do autor, o texto tenderá a ser o lugar de configuração de uma identidade, o lugar de produção da própria identidade — uma identidade sempre construída, tão real quanto ficcionada.
Do ponto de vista do leitor, e quaisquer que sejam os suportes que os textos possam fornecer para um análogo trabalho de construção da sua experiência individual, aquilo que se lhe oferece são representações verbais cuja recepção está subordinada à interacção com todo seu processo de formação cultural: a sua capacidade para reconhecer a pertinência e o sentido dessas representações decorre de um modo directo da sua experiência prévia de recepção de outras representações. E aqui situamo-nos já no interior objectivo de toda uma tradição de manipulação da língua. Aquilo que é produzido na esfera da experiência individual é transposto para a esfera da experiência colectiva, mesmo que individual e subjectivamente percepcionada por cada leitor. Neste plano, os critérios de recepção respondem pela intercepção entre aquilo que subjectivamente cada leitor pede a um texto e aquilo que ele sabe (decorrentemente da sua formação) corresponder às possibilidades de actualização criativa da língua.
Do ponto de vista do autor, será reconhecível na obra de Inês Lourenço esse trabalho de construção e reconstrução de uma identidade. O regresso à infância ou outras experiências da ordem da pertença (de género por exemplo) e da memória tem vindo a dar lugar a uma poesia de matriz urbana, atravessada pelo distanciamento quase cínico (ou simplesmente descrente) de uma identidade que não se revê nem no cenário nem na experiência — mas que se constrói nela e através dela. No seu último livro, Coisas que Nunca 1, Inês Lourenço prossegue um trabalho de produção deste desfasamento entre a experiência e o sujeito: entre a voz que diz e aquilo que é dito, mantendo, no entanto, o mesmo ambíguo registo de construção do eu ou, de um modo tão retórico quanto efectivo, do nós.
A produção deste desfasamento corresponde à incorporação da suspeita como princípio fundador da identidade. Neste sentido, é uma autora que aprendeu (como muitos outros contemporâneos) a força construtiva da suspeita e da desconfiança:
«Talvez ignores ainda
que não confio no poder dos versos (…)» 2
Esta desconfiança (retórica) face à escrita é contrariada pela tendência notória para se refugiar no abrigo fornecido pela própria ideia de poesia. Veja-se, por exemplo, Reescrita, um texto que retoma um gastíssimo cruzamento entre a escrita e o corpo:
«REESCRITA
 
Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme. » 3
Mesmo que assumidamente se trata de uma reescrita, estamos no mais elementar lugar-comum da poesia das últimas décadas: a ideia da poesia como corpo, a remissão do texto e da poesia para si mesmos, num imaginário empobrecido e linguisticamente nada inventivo. Naturalmente que inerente a isto está uma escrita rigorosa, suficientemente consciente para desconfiar de si e do mundo. Mas a poesia da suspeita corre aqui lado a lado com uma confiança prévia na própria língua, quando deveria transportar para a língua o exercício de suspeita e de desconfiança — este é um trabalho de interpelação e desconstrução (inevitavelmente de construção) da língua. Precisamente, alguma coisa que só a espaços se encontra neste livro, o que claramente o diminui. A falta de inventividade, ou de sentido de risco, compromete textos que, nos seus melhores momentos, prometem mais do que aquilo que o todo do livro oferece.
Veja-se aquele que será um dos melhores poemas do livro. Um daqueles que se mostram capazes de transportar o exercício da suspeita do plano da encenação para o plano da suspeita na própria língua:
«PARENTESCO
 
além de à puta que [nos] pariu,
há quem nos mande
para a cona da [nossa] prima ou
para os cornos do [nosso] avô. Envio
arcaico do sangue e do ódio
dos homens e das mulheres,
herança de que nunca
somos deserdados.» 4
Este é um texto que, do ponto de vista do leitor, oferece uma experiência que só raramente este livro consegue: transpor o expectável para o âmbito mínimo da interpelação. Na língua e através da língua.
1. Inês Lourenço, Coisas que Nunca, & etc, 2010, (56 p.).
2. Idem, 39.
3. Idem, 19.
4. Idem, 13.
Por H. G. Cancela in http://contramundumcritica.blogspot.com
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