Manoel de Oliveira
Contada por A. S. V.:
Veio um produtor brasileiro contratar Manoel de Oliveira para fazer um filme. O realizador respondeu que estaria disponível em 2015. O produtor antes de fechar o contrato exigiu que o realizador indicasse um nome para acabar o filme caso sobreviesse um impedimento (curiosa palavra). Manoel de Oliveira ponderou e retorquiu: sim, como uma única condição – em caso de impedimento dele, quem acaba o filme sou seu.
Contada por Cândida Colaço Monteiro:
Manoel de Oliveira propôs a Siza Vieira fazer um documentário sobre a sua arquitectura. Siza disse que sim, ficava muito honrado, mas lembrou que tinha obras espalhadas pelo mundo e, nesta altura, estava com alguns projectos em mãos. “Também não é para já”, respondeu Manoel de Oliveira.
5 de março de 2012
in http://oqueeuandei.blogspot.com/
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Realizador mais velho do mundo em actividade, autor de trinta e duas longas-metragens [2], Manoel de Oliveira provém de uma família da alta burguesia nortenha, tendo antepassados fidalgos.[3] É filho de Francisco José de Oliveira, industrial e primeiro fabricante de lâmpadas em Portugal, e de sua esposa, Cândida Ferreira Pinto.
Ainda jovem foi para A Guarda, na Galiza, onde frequentou um colégio de jesuítas. Admite ter sido sempre mau aluno. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto à vara, e atleta do Sport Club do Porto, um clube de elite. Ainda antes dos filmes veio o automobilismo e a vida boémia. Eram habituais as tertúlias no Café Diana, na Póvoa do Varzim, com os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, e outros.
Aos vinte anos vai para a escola de actores fundada no Porto por Rino Lupo, o cineasta italiano ali radicado, e um dos pioneiros do cinema português de ficção. Berlim: sinfonia de uma cidade, documentário vanguardista de Walther Ruttmann, influência-o profundamente. Tem então a ideia de rodar uma curta-metragem sobre a faina no Rio Douro — Douro, Faina Fluvial (1931) foi o seu primeiro filme, que suscitou a admiração da crítica estrangeira e o desagrado dos críticos nacionais. Seria o primeiro documentário de muitos que abordariam, de um ponto de vista etnográfico, o tema da vida marítima da costa de Portugal, motivo repercutido em Nazaré, Praia de Pescadores de Leitão de Barros, Almadraba Atuneira de António Campos) ou Avieiros de Ricardo Costa).
Adquiriu entretanto alguma formação técnica nos estúdios da Kodak, na Alemanha e, mantendo o gosto pela representação, participou como actor no segundo filme sonoro português, A Canção de Lisboa (1933), de Cottinelli Telmo, vindo a dizer, mais tarde, não se identificar com aquele estilo de cinema popular.
Só mais tarde, em 1942, se aventuraria na ficção como realizador: adaptado do conto Os Meninos Milionários, de Rodrigues de Freitas, filma Aniki-Bobó (1942), um enternecedor retrato da infância no cru ambiente neo-realista da Ribeira do Porto. O filme foi um fracasso comercial, mas com o tempo daria que falar. Oliveira decidiu, talvez por isso, abandonar outros projectos, envolvendo-se nos negócios da família. Só voltaria ao cinema catorze anos depois, com O Pintor e a Cidade, em 1956.
Em 1963, O Acto da Primavera (segunda docuficção portuguesa) marcou uma nova fase do seu percurso. Com este filme, praticamente ao mesmo tempo que António Campos, iniciou Oliveira em Portugal, a prática da antropologia visual no cinema. Prática essa que seria amplamente explorada por cineastas como João César Monteiro, na ficção, como António Reis, Ricardo Costa e Pedro Costa, no documentário. O Acto da Primavera e A Caça são obras marcantes na carreira de Manoel de Oliveira. O primeiro filme é representativo enquanto incursão no documentário, trabalhado com técnicas de encenação, o segundo – que conheceu a supressão de uma cena por parte da censura – como ficção pura em que a encenação não se esquiva ao gosto do documentário.
Por causa de alguns diálogos no filme passou dez dias de cadeia na PIDE[4].
A obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, até então interrompida por pausas e projectos não-realizados, só a partir da sua futura longa metragem (O Passado e o Presente, de 1971) prosseguiria sem quebras nem sobressaltos, por uns trinta anos, até ao final do século. A teatralidade imanente de O Acto da Primavera, contaminando esta sua segunda ficção, afirmar-se-ia como estilo pessoal, como forma de expressão que Oliveira achou por bem explorar nos seus filmes seguintes, apoiado por reflexões teóricas de amigos e conhecidos comentadores.
A tetralogia dos amores frustrados seria o palco por excelência de toda essa longa experimentação. O palco seria o plateau, em que o filme falado, em «indizíveis» tiradas teatrais, se tornariam a alma de um cinema puro só por ter o teatro como referência, como origem e fundamento. Eram assim ditos os amores, ditos eram os seus motivos, e ditos ficaram os argumentos de quem nisso viu toda a originalidade do mestre invicto: dito e escrito, com muito peso, sem nenhuma emoção, mas sempre com muito sentimento.
Manoel de Oliveira insiste em dizer que só cria filmes pelo gozo de os fazer, independente da reacção dos críticos. Apesar dos múltiplos condecorações em alguns dos festivais mais prestigiados do mundo, tais como o Festival de Cannes, Festival de Veneza ou o Festival de Montreal, leva uma vida retirada e longe das luzes da ribalta. Durante o Festival de Cannes em 2008, foi congratulado e felicitado pessoalmente pelo actor norte-americano Clint Eastwood.
Os seus actores preferidos, com quem mantém uma colaboração regular são Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Rogério Samora, Miguel Guilherme, Isabel Ruth e, mais recentemente, o seu neto, Ricardo Trepa. Não são também alheias as participações de actores estrangeiros, como Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, John Malkovich, Michel Piccoli, Irene Papas, Chiara Mastroianni, Lima Duarte ou Marisa Paredes.
Em 2008 completou cem anos de vida, tendo, entre outras, comemorações, sido condecorado pelo Presidente da República, e assistido à produção de um sem número de documentários sobre a sua vida e obra. Centenário, dotado de uma resistência e saúde física e mental inigualáveis, é o mais velho realizador do mundo em actividade, e ainda com planos futuros.
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Dez coisas que talvez não saiba sobre Manoel de Oliveira
No dia em que Manoel de Oliveira celebra 103 anos, o SAPO foi à procura de 10 coisas que talvez ainda não saiba sobre o decano dos realizadores mundiais.
A paixão por Chaplin: Apesar da vertente intelectual e hermética muitas vezes associada à obra de Manoel de Oliveira, o cineasta portuense já afirmou diversas que o realizador que mais profundamente amou terá sido aquele que porventura mais sucesso comercial e popular teve em toda a história do cinema: Charlie Chaplin. Oliveira nasceu em 1908, portanto viu na respetiva época toda a obra de Charlot, que arrancou em 1914, e já disse que em novo gostaria de ter sido ator de comédia. Não será por acaso que na participação que faz em «Viagem a Lisboa», de Wim Wenders, Oliveira imita precisamente o pequeno vagabundo.
Um ás do volante: Na década de 30, Oliveira foi um nome razoavelmente popular como piloto de automóveis, tendo vencido, por exemplo, o Circuito Internacional do Estoril em 1937 num Ford V8. Foi essa celebridade que lhe valeu a contratação para o papel de Carlos, o amigo de Vasco Santana no incontornável «A Canção de Lisboa» (1933), já que se considerava que ele poderia atrair ao filme espetadores do norte do país.
Um estreia pateada: A estreia do primeiro filme de Manoel de Oliveira, a curta-metragem documental «Douro, Faina Fluvial», deu-se em setembro de 1931, no decorrer do I Congresso Internacional da Crítica, organizado por António Ferro. Reza a história que o filme foi recebido com uma pateada tão monumental que um estrangeiro de visita a Lisboa terá perguntado se era assim que se aplaudia no nosso país.
O fundador do neo-realismo: Oliveira podia ter sido considerado internacionalmente o fundador do neo-realismo caso tivesse conseguido terminar «Aniki-Bobó» a tempo de o enviar ao Festival de Veneza de 1942. No ano seguinte, «Ossessione», de Luchino Visconti, marcaria nesse certame o início da corrente neo-realista no cinema, embora o filme de Oliveira já tivesse, um ano antes, as marcas desse estilo, nomeadamente a rodagem em cenários reais e não em estúdio, com atores não profissionais e com histórias urbanas passadas entre as classes mais desvalidas.
O caso Duarte de Almeida: João Bénard da Costa, um intenso defensor da obra de Manoel de Oliveira, tornou-se presença recorrente na obra do mestre portuense enquanto ator a partir de 1972 em «O Passado e o Presente». Sempre usando o pseudónimo Duarte de Almeida, o falecido diretor da Cinemateca foi tendo sempre participações nas fitas do realizador, sendo a última no segmento mais divertido do filme coletivo «Cada um o seu Cinema», de 2007, em que interpretava o Papa João XXIII.
A origem do chavão dos «filmes lentos e intermináveis»: Foi a imensa polémica gerada pela transmissão televisiva na RTP em 1978 de «Amor de Perdição» que colou a Oliveira uma imagem de que ele nunca mais se conseguiu livrar: a de que os seus filmes são sempre longuíssimos e absolutamente monótonos. Se a segunda classificação variará consoante o grau de sintonia do espetador com a narrativa do realizador, a primeira é absolutamente injusta, uma vez que o realizador raramente faz filmes com mais de 90 minutos. «Amor de Perdição» foi filmado em simultâneo como filme e série de televisão e o primeiro contacto que todos tiveram com ele foi precisamente através do pequeno ecrã, em que as virtudes do filme eram abafadas por uma exibição com a formatação errada e ainda a preto e branco. Só o sucesso no estrangeiro o viria depois a reabilitar no nosso país.
A origem da dupla Oliveira-Branco: A parceria entre Manoel de Oliveira e Paulo Branco arrancou precisamente com «Amor de Perdição», quando o segundo, ainda programador de uma sala de cinema em Paris, a Action Republique, projetou o filme em 1979 e o lançou na senda do sucesso internacional. Entre «Francisca» (1981) e «O Quinto Império – Ontem Como Hoje» (2004), Branco produziu 20 longas-metragens de Oliveira, cerca de uma por ano, uma produtividade que ninguém imaginava para um cineasta que toda a vida encontrara entraves para filmar e num país com crónica dificuldade de produção continuada.
O filme póstumo: Em 1982, Oliveira rodou «Visitas ou Memórias e Confissões» que por sua vontade explícita só poderá ser mostrado publicamente após a sua morte. O cineasta tinha então 74 anos, tivera até aí uma produção muito intervalada e todos pensavam que a sua carreira não demoraria muito a terminar. Afinal, a partir daí, quando todos os outros começam a abrandar, o cineasta disparou numa produção imparável, assinado mais 24 longas-metragens e uma série de outros projetos, numa bulimia criativa que não tem paralelo com qualquer outro realizador da história a partir dos 80 anos.
Um dos melhores da Cahiers du Cinema: «O Estranho Caso de Angélica» foi o segundo melhor filme de 2011 para a «Cahiers do Cinema», só precedido de «Habemus Papam – Temos Papa», de Nanni Moretti, e empatado com «A Árvore da Vida», de Terrence Malick. Porém, não foi a primeira vez que a revista colocou Oliveira entre os 10 melhores do ano. Em 1981, «Francisca» foi considerado o Melhor Filme do ano, em 1989 «Os Canibais» ficou na quinta posição, que o realizador manteve no ano seguinte com «Non ou a Vã Glória de Mandar». Em 1993, Oliveira ascendeu à segunda posição da lista com «Vale Abraão», e em 1998 «Inquietude» valeu-lhe o quinto lugar. Em 1999, «A Carta» ficou em sétimo lugar e em 2001 Oliveira voltou a conquistar o quinto lugar com «Vou para Casa», repetindo o feito e a posição em 2002 com «O Princípio da Incerteza», e em 2009 com «Singularidades de uma Rapariga Loura».
O próximo filme: A película que se segue na carreira de Oliveira já está rodada e está atualmente em fase de pós-produção. Chama-se «O Gebo e a Sombra», é uma adaptação de uma peça de Raúl Brandão e nele voltou a trabalhar com Michel Piccoli, Leonor Silveira e o seu neto Ricardo Trêpa. Trata-se do primeiro filme do cineasta produzido pela O Som e a Fúria, e deverá chegar às nossas salas em 2012, após estrear num dos três maiores festivais internacionais de cinema: Cannes, Veneza ou Berlim.
SAPO Cinema- 11-12-201108:00










































































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