Rui Manuel Amaral (1973)
A vida do poeta
O poeta passa os dias a coçar o anacoluto.
Muitas vezes, porém, a comichão só passa aplicando um cacófato.
Não é fácil a vida do poeta.
in Carvana, Angelus Novos, página 61
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Literatura
Uma macieira que dá laranjas.
in Carvana, Angelus Novos, página 11
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Os mirones
O dia entra na noite. A noite entra no dia. E os relógios observam isto, excitados e silenciosos, como os velhos mirones atrás das dunas.
in Caravana, página 33, Angelus Novos, Editores, 2008
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POEMA DO TRÁFEGO
Tombou uma gota, depois outra,
em seguida numerosas gotas tombaram
sobre os vidros e o tejadilho.
As velhotas fecharam as janelas
e o ar ficou mais quente.
Agora é um imenso casulo azul,
cercado pelo murmúrio da chuva.
Em volta há milhares de flores intermitentes
brilhando na escuridão.
Flores vermelhas, verdes
e amarelas.
O rádio explode: 20 horas no continente e madeira,
19 nos açores.
Enquanto as velhotas cabeceiam,
o autocarro avança mais um metro
por dentro da eternidade.
in http://portugaltorraonatal.blogspot.com/2011/10/poema-do-trafego-rui-manuel-amaral.html

























































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